Quando pensamos na Páscoa, as primeiras imagens que nos vêm à mente são as da ressurreição, dos recomeços e das tradições religiosas. Mas, para além da teologia tradicional, que mensagem humana e profunda essa data pode trazer especificamente para os pais?
Para além do significado do Cristo, o que sempre atraiu a minha curiosidade clínica e afetiva é a experiência de Maria. A mãe que vê o seu amado filho seguir um chamado próprio e, em última instância, perder a vida terrena.
Maria acompanha o caminho de sacrifício do seu filho sem nada poder fazer para mudar o roteiro — a não ser amá-lo, sustentá-lo com o olhar e respeitá-lo.
Para mim, esse é o maior e mais visceral exemplo daquilo que passamos a vida inteira ouvindo dizer, mas que raramente compreendemos na prática: o que significa, de verdade, criar os filhos para o mundo. Significa aceitar que o caminho deles — mesmo que, em alguns momentos, nos infrinja dor, medo e sofrimento — é muito maior do que nós e do que as nossas expectativas.
O preço invisível de tentar “caber” no amor dos pais
No consultório, o que mais encontramos são adultos que, inconscientemente, deixam a sua própria missão de lado, sabotam a sua saúde e abrem mão da sua felicidade individual apenas para não correrem o risco de perder o amor e a aprovação dos pais.
São pessoas que aprenderam, lá em seus momentos primordiais da infância, que para caber no amor de seus cuidadores eles não deveriam incomodar, não deveriam expressar sua autenticidade, mas sim obedecer e respeitá-los de forma cega, apenas pelo fato de serem pais.
O resultado dessa dinâmica é doloroso: para crescer e se diferenciar, esse filho fatalmente se sentirá culpado.
Se ele tiver a força e a consciência necessárias para correr o risco dessa culpa, ele estará, na verdade, abrindo mão daquela fantasia infantil de um dia ser merecedor do amor de alguém cujas expectativas ele consiga atender 100% do tempo. Ele escolhe caminhar sozinho.
Amar os filhos como eles são é respeitar o seu destino
Quando a psicologia e a parentalidade consciente falam sobre a importância de “amar os filhos exatamente como eles são”, é exatamente essa postura de Maria que deveríamos compreender.
Respeitar o destino e a individualidade de uma criança significa concordar com quem ela é, sem tentar moldá-la para poupar a nós mesmos da dor, do desconforto ou do julgamento social.
A grandeza da vida de nossos filhos pode, muitas vezes, nos parecer assustadora e fora do nosso controle. Mas ela é exatamente do tamanho que cabe a eles carregar.
O nosso papel não é conter essa grandeza para que eles caibam no nosso abraço protetor; o nosso papel é sermos a margem segura que assiste e valida a travessia.
Espaço da nossa Aldeia
Essa reflexão mexe com as nossas estruturas mais profundas de controle e apego. Olhando para a sua relação com os seus filhos hoje: você sente que tem conseguido deixá-los caminhar em direção ao próprio destino, ou a dor de vê-los falhar ou sofrer faz com que você queira controlar os passos deles?
Deixe as suas impressões e o seu desabafo aqui nos comentários. Vamos conversar sobre a coragem que a parentalidade real exige de cada um de nós.


