Sentir-se vulnerável, sensível, impotente e, muitas vezes, invisível. Para o homem, a chegada dos filhos traz não apenas a responsabilidade pelo sustento, mas o convite e o profundo desafio de vivenciar experiências emocionais que, historicamente, foram condenadas pela sociedade como fraquezas inapropriadas para o gênero masculino.
Na clínica e no trabalho de consultoria com famílias, tenho o privilégio de escutar esses homens. Em um espaço seguro, desprovido de julgamentos, as armaduras caem e revelam o quanto o exercício da paternidade ativa exige uma reconfiguração interna avassaladora.
Se por um lado a vida me presenteou com a convivência com um homem incrível que aceitou sua missão paterna com toda a intensidade e desafios, e com o privilégio de ter sido criada por um pai que valorizava seu papel, a realidade clínica me mostra que essa não é a regra.
A dor da falta e o desafio das renúncias
Infelizmente, para uma grande maioria das pessoas, as celebrações ligadas à paternidade são datas a serem evitadas — um lembrete doloroso do tamanho da falta, do abandono ou da distância. Por outro lado, para os homens que escolhem estar presentes por inteiro, o caminho na relação com os filhos é repleto de barreiras invisíveis.
Exercer uma paternidade consciente exige renúncias severas. Às vezes, o pai precisa abrir mão de antigas referências, de espaços de privilégio e, em alguns casos mais complexos de disputas familiares, até mesmo do convívio diário com seu próprio amor legítimo.
Em tempos de tantas mudanças necessárias na estrutura social, percebo o quanto de sofrimento esses homens acumulam silenciosamente. Existe uma angústia profunda por não encontrarem espaços de acolhimento e reconhecimento quando desejam se entregar genuinamente ao afeto e à transformação. O medo de fazer diferente e quebrar os ciclos de rigidez herdados das gerações anteriores é um companheiro constante nessa jornada.
A urgência de validar o papel paterno
A paternidade ativa não é apenas um “auxílio” à maternidade; ela é uma função relacional sistêmica única, com peso, valor e impacto próprio no desenvolvimento da criança.
É preciso celebrar o valor e a diferença que esses pais corajosos fazem na vida dos filhos, da dinâmica familiar e de toda a sociedade. A saúde emocional de uma criança ganha contornos profundos quando sustentada por uma postura paterna que sabe conjugar proteção e respeito com cuidado, zelo e carinho explícitos.
Desejo que o ecossistema que cerca esses homens aprenda a valorizar e a reconhecer esses movimentos de entrega. Que a sociedade se sensibilize diante da única e formidável oportunidade de cura e expansão que só a vivência da paternidade pode proporcionar a um homem.
Que eles continuem inspirando novos valores, demonstrando a todos — e especialmente aos seus filhos — a grandiosidade silenciosa que assumem ao escolherem, todos os dias, ser pais por inteiro.


