A fúria parental: o medo, a culpa e a reparação na visão de uma criança
Parentalidade 14 de abril de 2021 5 min de leitura

A fúria parental: o medo, a culpa e a reparação na visão de uma criança

Muitas vezes, na correria e no estresse do cotidiano familiar, a paciência se esgota e a fúria assume o controle. O que acontece na mente e no corpo de uma criança quando ela assiste ao descontrole daqueles que deveriam ser o seu porto seguro?

O relato a seguir nos convida a enxergar essa tempestade através dos olhos de quem a recebe.

O nascimento do monstro e o peso da culpa infantil

“Eu me assustei! A fúria daquele monstro me deixou aterrorizada. O descontrole, os olhos avermelhados, a fumaça saindo pelas ventas. Era enorme, incontrolável e insensível. Achei que não escaparia daquela fera que surgiu de repente.

Eu me encolhi toda, congelei de medo! Achei que morreria, quem me salvaria? Mamãe, que sempre me cuidava, tinha sido possuída por aquele monstro raivoso.

Me encolhi e chorei baixinho! Fiquei procurando o que eu havia feito para despertar a fera! Só podia ser culpa minha! Que menina má! Lembrei! Deixei de arrumar meus brinquedos? Esqueci o prato de comida sobre a mesa? Não! Deve ter sido meu jeito de falar! Eu sou mesmo uma menina tola, que estraga tudo!”

Quando um adulto perde o controle, a estrutura cognitiva da criança — que ainda é egocêntrica por natureza — tenta encontrar uma explicação lógica para o caos. E a resposta mais rápida que ela encontra é: “Eu fiz algo errado, a culpa é minha.” Como ilustrado na imagem, que traz o olhar vulnerável e marejado da infância sob a marca de um “legado”, o medo paralisa e o desamparo faz com que a criança se encolha dentro de si mesma.

“Quando aceitei meu fim pelo mal que fiz e desapareci em meu próprio corpo, abri levemente os olhos para ver onde por fim acabaria. O medo não deixava minha respiração fluir.

O que meus olhos viram?

Mamãe estava chorando! Deve ter ficado triste por eu ter partido? Mas, espera aí! Ao ver mamãe chorar, senti o coração bater de novo! Sem sair do cantinho, sequei as lágrimas. Mamãe olhou para mim e veio em minha direção! Ufa! Não estava morta!”

O colo que acolhe e a voz que repara

“Me aninhei em seu colo e pouco a pouco o calor voltou a circular em meu corpo. Chorei copiosamente! Afinal, o que aconteceu?

Mamãe explicou:

— Querida e amada filha, essa fúria que nos visitou mora dentro de mim e de cada um de nós! Eu estava desatenta e não consegui ouvir o que ela precisava, por isso ela saiu com tanta força. Eu imagino que você deva ter sentido muito medo e desamparo! Você se assustou, não é?

— Sim, mamãe! Muito! Sua fúria é muito brava! Mas a culpa foi minha! Eu esqueci de guardar os brinquedos e…

— De jeito nenhum, meu amor! Quem deixou a fúria sair fui eu, pois não cuidei dela como sei que preciso, não ouvi seu chamado! Nada do que você faça justifica o despertar da minha fúria!

— Então a culpa não foi minha?

— De jeito nenhum! A fúria não é a visita mais agradável do mundo! Ela é exigente! Cheia de caprichos que às vezes eu julgo não essenciais. Ela faz pedidos que não me sinto capaz de atender e tento não ouvi-la! Quando não ouço, ela invade e causa dano!”

O verdadeiro legado: autoresponsabilidade e cuidado com a nossa própria fúria

Essa conversa nos traz uma lição de valor inestimável para a parentalidade consciente. Perder a paciência e deixar a raiva transbordar faz parte da vulnerabilidade humana. O que nos diferencia e protege a saúde mental dos nossos filhos é o que fazemos depois do transbordo.

A fúria, como o próprio texto elucida, é um termômetro de negligência com as nossas próprias necessidades. Ela invade e causa danos quando passamos por cima do nosso cansaço, quando ignoramos nossos limites e deixamos de ouvir o que o nosso corpo e a nossa mente estão clamando.

Quando pedimos desculpas legítimas e pontuamos com clareza para a criança que nada do que ela faça justifica a nossa agressividade, nós quebramos o ciclo da culpa. Nós ensinamos a ela que as emoções são reais, que os adultos falham, mas que o amor permanece seguro e o vínculo sempre pode ser reparado.

A fúria pode nos visitar, mas o legado que decidimos deixar através do nosso projeto ParentalLab é o da reparação, do autocuidado e da coragem de olhar para as nossas próprias sombras para manter a infância protegida.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.