Criança doente: o cuidado, o valor do tempo e a autocompaixão parental
Parentalidade 24 de abril de 2019 3 min de leitura

Criança doente: o cuidado, o valor do tempo e a autocompaixão parental

A Serena está em casa se recuperando de uma virose. Hoje estamos apenas nós duas, um cenário raro e silencioso em nossa rotina. Enquanto a observava dormir tranquilamente no quarto, me peguei refletindo sobre a maneira como eu mesma experimentava os episódios de doença durante a minha própria infância.

Lembro com muita clareza dos adultos me perguntando com frequência: “— Você já está melhor?”. Aquela pergunta, embora aparentemente afetuosa, me trazia um incômodo profundo e silencioso. Eu interpretava aquela fala como uma cobrança invisível: eu precisava me recuperar rápido, precisava “ficar bem” o quanto antes. Nutria a nítida impressão de que, pelo fato de estarem parando a vida para cuidar de mim, a minha obrigação era retribuir aquele esforço melhorando depressa.

Aqui em casa, escolhi mudar a abordagem e a pergunta. Eu não cobro evolução; eu pergunto apenas: “— Como você está se sentindo?”.

Com a maternidade consciente, entendi que quando os nossos filhos ficam doentes, o nosso verdadeiro papel não é o de consertar o corpo deles magicamente, mas sim o de resguardá-los, permanecer emocionalmente disponíveis e garantir o tempo de repouso que o organismo deles necessita. Percebo, dia após dia, que o tempo e a presença são os ingredientes que mais auxiliam na cura. Eu não tenho o poder de fazê-los se recuperarem no estalar de dedos, e assumir essa limitação é extremamente libertador.

A doença como professora do ritmo

Esse processo com as crianças me permite aprender e lançar um olhar generoso também sobre os meus próprios momentos de fragilidade. Graças a eles, aprendi a não exigir mais de mim mesma uma melhora imediata ou um sorriso forçado quando, na alma ou no corpo, algo não vai bem.

Eu me permito parar. Consigo ver o incômodo, enxergar a dor, refletir sobre o que causou aquele desequilíbrio e, acima de tudo, dar o tempo necessário para que tudo volte a se reordenar internamente e trazer o seu ensinamento.

As crises biológicas e as doenças sempre trazem a oportunidade de uma melhora integral e de um amadurecimento, dependendo exclusivamente da forma como escolhemos vivê-las. Não precisa ter pressa para se curar. O adoecer, o recolher-se e o pausar também fazem parte da experiência de estar vivo.

Espaço da nossa Aldeia

Acolher os momentos em que o corpo dos nossos filhos pede desaceleração nos obriga a confrontar a nossa própria dificuldade de parar e respeitar os nossos próprios limites de adultos.

Como ressoa em você a necessidade de parar tudo quando um filho adoece? Você consegue sustentar a presença e o tempo de resguardo da criança com tranquilidade ou a culpa e a pressa da rotina te atropelam, fazendo você cobrar uma melhora rápida? Deixe as suas reflexões nos comentários. Vamos continuar aprendendo a respeitar o tempo dos nossos corpos e dos nossos filhos juntas na nossa aldeia!

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.