“Criança mimada.” Basta ouvir essa frase para que muitos pais entrem em um estado de alerta e profunda preocupação. Há um medo generalizado de que os filhos sejam rotulados e identificados nessa categoria.
Esse estigma traz imediatamente o julgamento de crianças que reivindicam espaço, que solicitam os pais com frequência e que se impõem. Sob a perspectiva do desenvolvimento saudável, uma criança que sabe se impor e expressar seus desejos é um ótimo sinal. O problema é que isso costuma incomodar os adultos, que nem sempre conseguem enxergar a criança como uma pessoa completa — alguém com necessidades legítimas, vontades próprias e qualidades individuais.
Se formos olhar para a definição real da palavra, mimar significa tratar bem, cuidar com carinho e fazer algo pelo bem do outro. Sob essa ótica, buscar alternativas para que os nossos filhos se sintam bem e saibam que são profundamente amados deveria ser a nossa atitude constante.
Por que, então, nós nos privamos tanto desse comportamento no dia a dia?
O medo das cenas públicas e a armadilha da dependência
Na prática, os pais costumam recuar no afeto e adotar uma postura rígida porque querem evitar a todo custo aquelas cenas exaustivas que assistimos em restaurantes, shoppings ou na casa dos avós. Situações em que a criança solicita a presença dos adultos para absolutamente tudo e assume um papel de centralidade, onde ela é quem dita como tudo deve ser feito.
Essa atitude constantemente insatisfeita, exigente e tirânica da criança que a sociedade carimba como “mimada” nasce, na verdade, de uma raiz de insegurança. É altamente provável que essa criança não se sinta capaz de fazer, realizar ou superar situações por ela mesma. Ela se sente dolorosamente dependente do olhar e da ação do adulto para conseguir coisas que, na realidade, já teria total capacidade de conquistar sozinha.
Quando não criamos em casa um ambiente seguro que possibilite a construção da autonomia, acabamos intervindo desnecessariamente nas pequenas ações do cotidiano. E, ao fazer isso, roubamos da criança a experiência valiosa e a segurança interna da conquista. Ela passa a se realizar unicamente através do agir do adulto.
A quem o “mimo” realmente serve?
Como destaco no registro que compartilhei na imagem, na tentativa bem-intencionada de oferecer o bem para o outro, muitas vezes atrapalhamos a sua possibilidade de crescimento, mantendo-o preso em uma dependência infantilizada.
Precisamos ter a coragem de nos perguntar com honestidade: talvez o “bem” que estamos buscando oferecer no momento seja um bem a nós mesmos?
Muitas vezes, ceder sem critérios ou fazer pelo filho o que ele já sabe fazer sozinho é apenas uma tentativa nossa de:
- Não ter um trabalho a mais na rotina exaustiva;
- Não precisar aguentar e acolher a frustração natural que faz parte de qualquer aprendizado;
- Evitar lidar com a raiva ou o choro da criança quando ela é contrariada em uma relação.
Para o nosso bem-estar imediato, buscamos uma forma de evitar o conflito, oferecendo à criança uma solução paliativa que traz alívio para o adulto, mas não necessariamente o que é benéfico para o desenvolvimento dela.
A pergunta de ouro da parentalidade consciente
Nós devemos, sim, mimar os nossos filhos. Devemos ter a total liberdade de expressar o nosso amor, o nosso carinho, o nosso afeto físico e de buscar dar a eles todo o bem possível neste mundo. O afeto nunca estragou nenhuma criança.
No entanto, para não cair na armadilha de criar uma dependência que adoece e enfraquece, guarde sempre esta pergunta de ouro em cada situação do dia a dia: Qual é o verdadeiro bem para a criança nesta situação específica?
Ajudá-la a resolver o problema ou dar a ela o espaço e o suporte emocional para que ela tente resolver sozinha?
Faz sentido para você?


