Estar presente vs. estar conectado: a verdadeira necessidade infantil
Parentalidade 28 de maio de 2019 4 min de leitura

Estar presente vs. estar conectado: a verdadeira necessidade infantil

Existe uma diferença abissal entre estar fisicamente presente e estar emocionalmente conectado com um filho. Crianças não exigem apenas a nossa proximidade; elas exigem, de forma legítima, conexão real. Não basta simplesmente “estar lá”.

Quando estamos verdadeiramente conectados a uma criança, desenvolvemos uma sensibilidade quase intuitiva, a capacidade sutil de decifrar o que ela precisa e até mesmo o que ela está sentindo antes que consiga verbalizar. Não é exatamente esse o paraíso com o qual todos nós sonhamos em nossa própria infância? Ter ao lado alguém capaz de adivinhar as nossas necessidades mais profundas antes de nós mesmos? Isso é um sonho, mas é também uma necessidade biológica e estrutural que precisa ser rigorosamente atendida nos primeiros anos de vida.

Por isso, não basta optarmos por abrir mão da carreira ou escolher ficar em casa para cuidar dos filhos se, emocionalmente, permanecemos blindadas e incapazes de nos conectar com as demandas deles. Sem a entrega do afeto, o belo discurso da dedicação exclusiva torna-se uma dolorosa hipocrisia.

Estar dentro de casa 24 horas por dia com uma criança não significa que você permaneceu vinculada a ela, ou minimamente atenta aos seus pedidos de olhar, de toque, de permanência, de acolhimento e de amparo. Infelizmente, não é incomum ouvirmos no consultório histórias dramáticas do que chamo de “abandono presente”.

O cansaço do casulo e a armadilha do entretenimento

É evidente e factual que atender às demandas ininterruptas de uma criança pequena, especialmente em um cenário de isolamento social e sem rede de apoio, é uma tarefa extenuante para qualquer mulher. No entanto, o cansaço do cenário tampouco justifica ou apaga as consequências da nossa ausência emocional.

Esse é o aspecto mais central e desafiador para uma recém-mãe: encontrar o equilíbrio e a harmonia possíveis entre a presença física e a conexão afetiva, sentindo-se capaz e disposta a bancar essa entrega.

O grande problema é que nós não fomos educadas para isso. Não aprendemos sequer a nos conectar com nós mesmas, a ouvir as nossas próprias necessidades reais ou a acolher os nossos sentimentos desconfortáveis. Desde cedo, fomos ensinadas a nos entreter de todas as formas possíveis para anestesiar o incômodo da dor, e a vida segue nesse piloto automático até o dia em que nos tornamos mães.

Nesse momento exato, a nossa fuga crônica do sentir passa a trazer consequências não apenas para a nossa saúde mental, mas diretamente para o desenvolvimento e a segurança psíquica do ser que veio de nós.

Está tudo bem reconhecermos que temos limitações e carências. O ponto crucial é compreender que as nossas fraquezas adultas não definem e não diminuem a quantidade real de mãe que aquela criança precisa para crescer saudável; elas definem apenas a quantidade de mãe que nós estamos conseguindo ser. Acolher com maturidade a “falta de mãe” que somos para os nossos filhos é o único caminho honesto de tomada de consciência e de libertação. E as crianças têm o direito inalienável à verdade. Qual é a sua verdade hoje?

Espaço da nossa Aldeia

Romper com a ilusão da presença automática nos obriga a olhar para o celular, para a rotina e para as nossas próprias fugas, resgatando a qualidade dos nossos encontros com os nossos filhos.

Você já viveu aqueles dias em que passou o tempo todo ao lado do seu filho, mas, ao final da noite, sentiu que não esteve conectada com ele de verdade por nenhum minuto? Como tem sido para você o exercício de encarar as suas próprias limitações sem se chicotear, mas escolhendo oferecer uma presença mais verdadeira às crianças? Deixe o seu relato nos comentários. Vamos continuar clareando a nossa maternidade juntas na nossa aldeia!

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.