Entre o amor e as falhas: o impacto das gerações na criação dos nossos filhos
Parentalidade 5 de março de 2021 3 min de leitura

Entre o amor e as falhas: o impacto das gerações na criação dos nossos filhos

Teve um dia em que eu a tinha nos braços. Por motivos que hoje já não me recordo e que, na verdade, pouco importam. O que realmente valeu foi o instante avassalador de compreensão que me habitou naquele momento.

Não havia tempo no sensível contato de nossas peles. Com uma clareza cortante, consegui reconhecer, através das gerações, a grandiosidade de todo gesto de amor que foi “suficiente”. Naquele segundo, concordei internamente com os meus avós e me esvaziei totalmente de julgamentos diante de todos aqueles que vieram ainda antes deles.

Ao olhar para trás e ver os meus pais, só pude reconhecer o amor — certamente o maior e mais profundo que eles já sentiram na vida. Esse afeto estava em cada pequeno gesto, em cada olhar guardado na memória.

O paradoxo do amor abundante e da dor que permanece

Mas, logo em seguida, o presente me chamou: me encontrei pequena diante do choro que não cessava no meu próprio colo. Percebi que, mesmo mergulhada em um amor abundante, eu sentia profundamente uma dor que emanava deste meu pequeno ser nos braços.

Abraçada à minha filha, entendi uma verdade dolorosa e libertadora: dar-lhe todo o meu amor transcende a minha existência, mas as minhas falhas, ainda não superadas, vão marcar inevitavelmente o seu coração — da mesma forma que o meu próprio coração foi marcado no passado.

Eu olho para os meus pais e sinto uma gratidão verdadeira por todo o amor e pela coragem que eles tiveram. Ainda assim, compreendi que a grandiosidade do amor dos meus pais não anula a dor do meu próprio sentir.

Eu não devo, e não posso mais, deixar de acolher afetuosamente a minha própria criança interna quando a vejo tão encolhida e indefesa, ou se criticando e exigindo fazer do impossível o possível. Validar a minha dor não é culpar quem me criou; é o início da minha cura.

Assumindo a nossa humanidade na parentalidade

Olhar para cada uma dessas partes — o amor recebido, a dor sentida e a gratidão cultivada — é o que me permite, de fato, enxergar o filho que tenho hoje nos braços com integridade.

Só assim consigo enxergar todas as oportunidades reais de conexão, o tamanho imenso do meu amor e, com igual grandeza, assumir as consequências das minhas faltas e da minha imperfeição.

Criar com apego e consciência não é ser uma mãe impecável, mas sim ter a coragem de abraçar a nossa própria humanidade. Entre o amor e a dor, cada um de nós — os que vieram antes, nós e os nossos filhos — cumpre o seu papel nessa teia.

Espaço da nossa Aldeia

Romper com o peso da perfeição e aceitar que vamos errar, mesmo amando profundamente, é um dos passos mais difíceis da parentalidade. Você já conseguiu olhar para as suas falhas com essa mesma autocompaixão? Conseguir validar a sua dor de infância te ajudou a olhar melhor para o seu filho?

Compartilhe a sua história aqui nos comentários. Vamos continuar transformando as nossas dores em uma rede de liberdade e acolhimento mútuo.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.