Para conseguir adormecer, qualquer ser humano precisa, antes de tudo, sentir-se em perfeita segurança. E é justamente por isso que o sono costuma ser o primeiro grande desafio que os filhos nos trazem na jornada parental.
Muitas vezes, nós nos sentimos profundamente incapazes de lidar com a realidade biológica de que um bebê também tem necessidades legítimas durante a noite — e de que ele depende exclusivamente de nós para atendê-las. No auge do cansaço físico, o maior desejo dos pais é que esse período acabe o quanto antes. É nessa vulnerabilidade que muitas famílias acabam recorrendo a teorias mirabolantes e técnicas rígidas que justificam a negligência do cuidado por parte dos adultos e a consequente resignação forçada por parte do bebê.
O ponto crucial que precisamos compreender de uma vez por todas é: as necessidades básicas de um bebê que deixam de ser atendidas na madrugada não desaparecem por mágica. Elas vão, inevitavelmente, encontrar uma outra forma de se manifestar no corpo ou no comportamento da criança — e, na maioria das vezes, isso acontece através do adoecimento físico, pois o sintoma passa a ser a única forma de o pequeno ser finalmente “ouvido” pelos pais.
A ilusão de “ganhar o jogo” contra o bebê
Não existe absolutamente nenhuma conquista evolutiva ou pedagógica no fato de uma criança pequena conseguir, após um pico severo de estresse e choro, adormecer sozinha no berço.
Os adultos costumam ter a falsa impressão de terem “ganhado o jogo” e celebram o silêncio do quarto como uma vitória educativa. Infelizmente, mais adiante, esses mesmos pais sofrerão as consequências emocionais e comportamentais desse desamparo precoce, sem sequer questionar a verdadeira causa.
A demanda de um bebê por toque, alimento, amor, colo, amparo, embalo e higienização não deixa de existir porque foi ignorada. E não há mérito algum em negar algo tão essencial quanto a segurança e a conexão a um ser que é totalmente dependente de nós. Olhando sob a perspectiva do tempo, essa fase de dependência noturna dura um suspiro.
Bebês são bebês de dia e de noite também. O sol se põe, mas a necessidade de vínculo permanece idêntica. Você terá, sim, a oportunidade de celebrar a volta das noites prolongadas e ininterruptas de sono quando isso acontecer de forma natural. E isso acontece de maneira saudável e orgânica justamente quando nós proporcionamos bem-estar e contorno aos pequenos ao longo de todo o processo.
Autoeducação para romper o desamparo
Se você, hoje, se sente no seu limite físico e emocional para atender às necessidades permanentes do seu bebê, não carregue esse peso sozinha: procure apoio real. Não há absolutamente nada de errado em um bebê solicitar o seu próprio bem-estar através do choro, e tampouco há erro em reconhecermos as nossas próprias limitações humanas.
O erro está em aceitarmos os nossos limites como barreiras intransponíveis e escolhermos permanecer pequenos diante da necessidade do nosso filho.
Para sair da dinâmica sutil da violência e do desamparo transgeracional, o único caminho possível é a autoeducação. Precisamos desenvolver a nós mesmos, curar as nossas próprias marcas de infância e amadurecer emocionalmente para conseguir sustentar o ninho seguro de que os nossos filhos tanto precisam. De dia e de noite.
Espaço da nossa Aldeia
Compreender o sono como um processo de maturação biológica e emocional nos liberta da pressão social por bebês que dormem como robôs.
Como tem sido a dinâmica das noites na sua casa? Você já se sentiu tentada a seguir receitas prontas para fazer o seu filho dormir ou tem conseguido encontrar caminhos para acolher as necessidades noturnas dele respeitando os seus próprios limites? Deixe o seu relato nos comentários. Vamos continuar acolhendo as nossas noites e os nossos pequenos juntas na nossa aldeia!


