A rede invisível da amamentação: por que o papel do pai é decisivo no aleitamento?
Amamentação 21 de maio de 2021 3 min de leitura

A rede invisível da amamentação: por que o papel do pai é decisivo no aleitamento?

Podemos mesmo acreditar que os pais não participam ou não têm impacto no processo de amamentação?

Se olharmos apenas para o ato biológico do aleitamento em si, pode parecer que a figura masculina não tem uma relevância direta. No entanto, quando expandimos a nossa visão para a dinâmica familiar, percebemos que todo o suporte necessário para garantir que a amamentação possa acontecer e se sustentar é profundamente impactado pelas atitudes, pela presença e pelo posicionamento que o pai assume após o nascimento do bebê.

A amamentação não depende apenas da sucção do bebê; ela é regulada por hormônios sensíveis ao estado emocional da mulher. Fatores como a solidão acompanhada, o excesso de críticas, o peso de se sentir a única responsável pelo bem-estar da criança, a privação de necessidades biológicas fundamentais (como comer com calma, tomar banho ou dormir), além de comentários inadequados, pitacos externos e o estresse da rotina interferem diretamente na produção de leite e nas condições psíquicas para que a mãe consiga manter o aleitamento.

O pai que assume o papel de “barreira de proteção” contra essas interferências externas é quem verdadeiramente sustenta a amamentação.

A sobrecarga e a invisibilidade do homem no pós-parto

Para construirmos relações mais saudáveis, precisamos olhar para os dois lados dessa engrenagem. O homem, assim como a mulher, também enfrenta uma sobrecarga monumental no período pós-parto. E a realidade social impõe barreiras rígidas: ao mesmo tempo em que muitos pais desejam participar ativamente e se envolver no cuidado, eles são cobrados pelo mundo externo a continuar a rotina e o ritmo de trabalho exatamente de antes, como se nada tivesse mudado.

Na escuta clínica e no acolhimento a essas famílias, são frequentes os relatos de homens que se sentem genuinamente impotentes e invisíveis nesse processo. Eles transitam entre o desejo de apoiar a companheira e a pressão invisível de sustentar uma estrutura que muitas vezes não lhes dá espaço para exercer a sensibilidade e o cuidado.

Infelizmente, são raros os contextos em que os pais conseguem manter uma presença integral por longos períodos, justamente porque as cobranças da vida pública e do mercado de trabalho continuam batendo à porta de forma implacável.

Um problema estrutural que adoece famílias

O impacto que a ausência ou o afastamento forçado do pai representa nos primeiros meses de vida da criança ainda fica longe das estatísticas oficiais, mas cobra um preço altíssimo nos dados de adoecimento mental materno e no esgotamento do casal.

A licença-paternidade no Brasil, por exemplo, ainda é um reflexo dessa mentalidade ultrapassada que enxerga o pai apenas como um “ajudante” pontual, e não como uma figura relacional indispensável desde os primeiros dias de vida da cria.

Falar abertamente sobre essas dores invisíveis — tanto a exaustão da mãe que amamenta no isolamento quanto a angústia do pai que deseja cuidar mas é empurrado para fora do ninho — é o primeiro passo para que possamos, como sociedade, desenhar políticas públicas, redes de apoio e uma realidade muito mais satisfatória e saudável para o nascimento das novas famílias.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.