Você consegue realmente enxergar o que acontece enquanto as crianças brincam? Consegue perceber, se deixar transportar e imaginar como elas estão vivendo e sentindo aquela experiência por dentro?
Nós, adultos, carregamos um hábito cultural profundamente enraizado: o ranço de antecipar a nossa interação com as crianças. Entramos na brincadeira antes da hora com a eterna intenção de protegê-las de perigos imaginários, educá-las a todo segundo ou instruí-las sobre a “forma certa” de usar um brinquedo. O preço dessa hipervigilância é alto: isso nos cansa massivamente, nos deixa ansiosos e nos desconecta do momento presente. Ficamos reféns de opiniões alheias, ideias prontas e métodos pedagógicos rígidos.
Nesse processo de controle, perdemos a nossa própria espontaneidade e, pior, corremos o risco de fazer com que os nossos filhos percam a deles, tentando espremê-los para caber no nosso script de adulto.
Mudando a perspectiva diante do caos
Quando o caos e a aparente bagunça surgem por aqui, eu escolhi aceitar. Em vez de reagir imediatamente com uma ordem ou uma bronca, eu paro e tento simplesmente observar o que está acontecendo ali — sob a perspectiva deles.
Eu decidi não tentar combater o caos. Prefiro esperar pacientemente o tempo que ele precisa para permitir que a ordem retorne de forma natural.
Há pouco tempo, o que eu achava que era uma bagunça que estava me atrapalhando na cozinha revelou-se, sob um olhar mais atento, uma brincadeira divertidíssima. Minha filha estava explorando o mundo de uma outra forma, fascinada através do reflexo distorcido da panela de inox onde eu, seriamente, cozinhava o jantar.
O portal mágico da nossa própria infância
Ao ver aquela cena, fui imediatamente transportada para o passado. Lembrei que eu também brincava exatamente assim na minha infância, observando a minha imagem distorcida no reflexo da porta do Fusca da família. Para mim e para minha prima, aquela lataria era um portal mágico que rendia muitas risadas. Era diversão pura, gratuita e totalmente disponível — desde que permitida pelos adultos da época.
O nosso maior risco nessas situações cotidianas é perder esses instantes mágicos por pura pressa ou obsessão por organização, pois são justamente esses lampejos de alegria que servem de alimento e combustível emocional para os nossos tempos mais desafiadores.
A relação com os filhos tem a potência de nos nutrir com diversão, leveza e imaginação. Ela nos dá a chance de viver experiências que, muitas vezes, na nossa própria infância, foram reprimidas ou silenciadas. Experimentar o lugar da aceitação e da contemplação em vez da intervenção constante é um passo muito mais elevado e curativo para a nossa experiência humana.
Espaço da nossa Aldeia
Deixar o julgamento de lado e permitir que a brincadeira aconteça no ritmo da criança exige que o adulto abra mão do controle absoluto sobre o ambiente.
Quando o “caos” se instala na sua casa, qual é a sua reação automática: você entra no modo de intervenção para organizar tudo ou consegue parar e observar a lógica da brincadeira deles? Você tem alguma memória de infância parecida com a do reflexo no Fusca?
Compartilhe a sua reflexão nos comentários. Vamos continuar transformando as nossas dores em uma rede de liberdade e acolhimento mútuo.


