Desde que li as obras do obstetra Michel Odent, em 2008, não deixo de me lembrar o quanto o mistério do nascimento, o rito do parto e a formação de uma nova família nos remetem diretamente à história milenar da Natividade.
Eu mesma tive o privilégio de experimentar esse estado selvagem, cru e divinamente simples da vida por essa jornada profunda. Meus filhos nasceram e foram imediatamente aquecidos pelo meu próprio corpo quente, sendo abençoados pelo silêncio profundo e pela quietude da nossa mais íntima privacidade.
Esse sentimento pulsante que costuma vibrar na nossa alma de forma mais evidente durante as festividades de fim de ano é, na verdade, a mesma força que me acompanhou em cada um dos meus partos. É uma energia viva que revive dentro de mim a cada novo encontro com uma família que está nascendo.
O milagre diário do nascer
Como bem diz a letra daquela música que cantamos em coro durante o período do Advento:
“Como a semente, já tem árvore guardada, toda criança é sagrada. Não pode ser diferente, é Natal diariamente! Pois a vida não se cansa e quando nasce uma criança, nasce Jesus novamente!”
O nascimento do Cristo representa, em sua essência, a abertura da alma humana para o nascimento do novo. É o nosso preparo interno para receber aquilo que ainda não conhecemos e que não conseguimos, nem mesmo em nossos melhores sonhos, antecipar ou projetar.
Receber com a alma confiante
Por isso, a minha sugestão a você que espera um filho ou que lidera uma casa é: receba o seu filho com a alma inteiramente confiante. Tenha a certeza de que a realidade que virá será bem diferente de qualquer coisa que você consiga planejar ou imaginar hoje no papel.
Não tente controlar o incontrolável. A sua atitude presente — cheia de esperança, reverência e reconhecimento — será exatamente o combustível necessário para sustentar a nova vida que começa a brotar.
Prepare-se diariamente para receber a visita mais importante, sagrada e transformadora da sua existência. Que a força da Natividade traga a você a oportunidade constante de reviver, no cotidiano, as nobres qualidades do nascer.
Espaço da nossa Aldeia
O nascimento de um filho zera o relógio e nos obriga a olhar para o futuro com olhos de primeira vez, despindo o adulto de suas certezas antigas.
Como foi para você a experiência de receber o desconhecido no nascimento do seu filho? Você conseguiu se abrir para o novo ou sentiu o peso de tentar prever cada passo da rotina?
Compartilhe a sua reflexão nos comentários. Vamos continuar transformando as nossas dores em uma rede de liberdade e acolhimento mútuo.


