O mito do “sempre saber”: por que a vulnerabilidade nos torna pais melhores
Parentalidade 25 de junho de 2021 3 min de leitura

O mito do “sempre saber”: por que a vulnerabilidade nos torna pais melhores

Você reconhece em si mesma a legítima vontade de ter as respostas certas sobre absolutamente todas as situações que enfrentará com o seu bebê?

Olhando de fora, parece um sonho: como seria bom afastar qualquer dúvida, ter certeza absoluta de tudo, antecipar os cenários e *sempre saber* exatamente o que fazer. Acreditamos piamente que essa clareza infalível nos pouparia de grandes angústias, medos e incertezas.

Porém, a realidade clínica nos mostra que o que leva os pais ao desespero e ao esgotamento é justamente o peso desse ideal inalcançável. Em algum momento da nossa cultura, compramos a ideia de que a boa parentalidade exige onisciência.

Quando nos deparamos com o inevitável “não saber” — diante de um choro que não cessa ou de uma fase nova do desenvolvimento —, somos jogados em uma situação desconfortável da qual lutamos ardentemente para nos desvencilhar. Essa falta de respostas prontas gera angústia e abala diretamente a percepção própria sobre o nosso valor, fazendo com que a gente questione se somos, de fato, “bons” pais.

O perigo das certezas absolutas

Mas será que ter todas as respostas guardadas em um manual rígido seria mesmo a melhor postura nessa relação?

Se você soubesse de tudo antecipadamente, o seu papel seria apenas o de uma executora de ordens. Isso roubaria de você a chance de experimentar um lugar prazeroso, instigante, atraente e provocador que só a convivência espontânea traz. É justamente a ausência de uma fórmula mágica que nos impulsiona a permanecer no papel de aprendiz, mantendo-nos atentas às oportunidades, curiosas e firmes em uma postura genuinamente observadora.

Essa situação desconfortável, que ameaça a nossa ilusória e inviolável fortaleza do “sempre saber”, tem um nome que assusta, mas que cura: vulnerabilidade.

Da fortaleza ao caminho do aprendizado

A vulnerabilidade nos exige abertura. Ela nos obriga a reconhecer a realidade angustiante de não ter nada estático diante de nós, apenas um caminho a ser construído passo a passo. Para trilhá-lo, precisamos de coragem — a coragem necessária para assumir que, na relação com os nossos filhos, o que importa mesmo não é saber tudo, mas sim estar disposto a sempre aprender.

Quando abandonamos a postura de juízes ou detentores da verdade e assumimos o papel de aprendizes, ficamos atentos e disponíveis para as oportunidades que a nova relação nos desafia a superar e a transformar. Deixamos de tentar controlar o comportamento do bebê e passamos a nos regular com ele.

A parentalidade consciente não nasce da certeza, mas sim da presença na incerteza.

**Para refletir:** Se você olhar para a sua rotina hoje, você tem se colocado no papel de quem precisa “sempre saber” diante dos seus filhos, ou tem se permitido “sempre aprender” na relação viva com eles?

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.