A história de Santa Isabel nos traz reflexões preciosas e atemporais sobre a jornada de se tornar mãe. Ela foi uma mulher devota que viveu o seu maternar já em idade avançada, em uma época e cultura nas quais as mulheres que não conseguiam engravidar carregavam o doloroso estigma social da “maldição” e do esquecimento.
Se olharmos de perto, essa temática está longe de ser ultrapassada.
Por um lado, as mulheres ainda vivem sob a cobrança silenciosa (e às vezes bem barulhenta) de gerarem filhos em uma determinada faixa etária, como se houvesse um roteiro obrigatório de realização e reconhecimento que só pudesse ser alcançado através do maternar. Por outro, acompanhamos nos bastidores o sofrimento de tantas mulheres que lutam arduamente, mês após mês, para tentar transformar o sonho da maternidade em realidade concreta.
Muitas vezes, a vida exigiu demais dessas mulheres no período em que seus corpos estavam biologicamente mais férteis — seja pelas demandas de carreira, seja pela busca por estabilidade. Outras vezes, deparamo-nos com mistérios que o próprio corpo fala através de sintomas cuja mensagem não foi decifrada a tempo, tornando o caminho para ter filhos uma trilha tortuosa ou, por vezes, impossível.
A potência do encontro e da empatia
Há uma imagem clássica que traduz perfeitamente a essência e a intenção do meu servir diante de cada mãe que acompanho no consultório e nos projetos do ParentalLab. É a cena do encontro entre Isabel e sua prima Maria — as duas grávidas, cruzando seus caminhos.
Quando olhamos para esse encontro, o que se destaca não é a teologia pura, mas a psicologia da empatia profunda entre elas. Duas mulheres em momentos singulares de suas vidas, que se celebram e se acolhem mutuamente com entusiasmo, respeito e alegria. É um espelho perfeito de como deveria ser, idealmente, toda relação entre mulheres. Uma verdadeira comunidade de cuidado, livre de competições ou julgamentos sobre quem está fazendo o quê.
No nascimento de São João, celebrar o maternar de Santa Isabel é também celebrar a resiliência de todas as mulheres que esperam, que choram suas perdas e que reconstroem seus desejos. Que a história dela possa abençoar os ventres e as mentes que, porventura, estejam descrentes da abundância, da prosperidade e dos fluxos da vida, trazendo um sopro renovado de esperança.
Criar comunidades seguras
Que a postura dessas duas mulheres nos inspire a cultivar o entusiasmo, a aceitação e a alegria em nossos próprios corações. Que a empatia, o acolhimento e o respeito ao tempo do próximo — sentimentos que historicamente pulsam e aquecem as comunidades — possam inspirar as nossas relações diárias.
Mais do que nunca, precisamos aprender a experimentar a vida e a parentalidade de forma segura, festiva e verdadeiramente integrada. Ninguém deveria precisar atravessar as suas dores e as suas esperas sozinha.


