Imagine que eu aparecesse por aqui hoje fazendo o seguinte anúncio: “Decidi que vou desistir de criar meus filhos a partir de hoje. Preciso priorizar a minha saúde mental!”.
Como você reagiria a essa afirmação? O que aconteceria se, em um momento de cansaço extremo, a sua declaração interna de que “não aguenta mais” fosse levada literalmente a sério pelo mundo?
Como ilustra a provocação que compartilhei recentemente nas redes sociais, esse exercício hipotético é incômodo, mas profundamente válido. Ele nos joga de volta para a realidade nua e crua da parentalidade: por mais que o esgotamento tente nublar nossa visão, nós escolhemos estar nesta relação. E continuamos escolhendo todos os dias.
O chamado para ir além de nós mesmos
Eu admiro profundamente o esporte de elite e a religião. Embora estejam em categorias completamente diferentes, são experiências humanas que nos forçam a ir além daquilo que sabemos sobre nós mesmos; elas revelam nossos aspectos mais nobres.
É exatamente assim que eu enxergo o maternar: um chamado que exige transcendência e que invoca a minha mais autêntica admiração por tantas mulheres que cruzam o meu caminho clínico e pessoal.
Quando vemos atletas de renome mundial — como o caso histórico da ginasta Simone Biles — abrindo mão de competições importantes em nome da saúde mental, o mundo debate a legitimidade dessa escolha. O objetivo aqui não é julgar ou questionar a decisão de uma atleta. Existe um contexto, uma história de vida que conhecemos apenas parcialmente e consequências que a mídia provavelmente não vai mostrar quando a onda passar.
No entanto, quando transpomos essa mesma lógica para o território da maternidade, precisamos fazer um alerta clínico importante.
Desistir não cura. Desistir adia.
No esporte, na carreira ou nos projetos de vida, a renúncia pode ser uma estratégia de preservação. Mas na relação com os nossos filhos, o vínculo é irrevogável. E, do ponto de vista da psicologia sistêmica, precisamos compreender que desistir não cura. Desistir adia.
Afastar-se ou dar as costas para um cenário desafiador muitas vezes apenas adia a oportunidade de entrar em contato com partes desconfortáveis da vida que precisamos aprender a integrar. A frustração, a vulnerabilidade, a imperfeição, a decepção e a impotência podem ser devastadoras em um primeiro momento. Para quem persiste, porém, elas se tornam a única oportunidade real de integração, expansão e aceitação.
Vivi momentos duríssimos na minha própria jornada materna e acompanho dores semelhantes diariamente no consultório. Hoje, tenho clareza de que foi justamente a impossibilidade de desistir que nos trouxe, a mim e a tantas mães, a chance de uma transformação real. Nada fácil, nada simples, mas profundamente estruturante.
O fim do túnel só é alcançado quando aceitamos atravessar o túnel. O processo é semelhante a uma contração de parto: dolorida, intensa, mas absolutamente necessária para dar à luz uma nova versão de nós mesmas.
O que realmente promove a saúde mental?
A verdadeira saúde mental na maternidade não se faz com a ilusão da fuga ou com o abandono das nossas responsabilidades relacionais. Ela deve ser promovida através de estratégias reais de autocuidado, de processos profundos de autoconhecimento e, fundamentalmente, da construção de um ambiente de segurança emocional onde possamos, finalmente, olhar de frente para os nossos sentimentos mais desagradáveis.
Romper o compromisso e tentar “desistir” da engrenagem parental apenas nos mantém em uma tortura suspensa: a de estarmos onde nunca estivemos por inteiro, divididas entre as nossas luzes e as nossas sombras.
Atravessar o caos do cuidado é o que nos cura. E, nessa caminhada, aprender a pedir ajuda para sustentar o processo é o que nos mantém humanas.


