Imaginem eu vir até vocês anunciando: “Vou desistir de criar meus filhos a partir de hoje. Preciso cuidar da minha saúde mental!”
Como vocês reagiriam? O que aconteceria se no momento de cansaço extremo sua declaração de que não aguenta mais, fosse levada a sério?! Acho esse hipotético exercício muito válido para nos trazer a realidade de que, por mais que não pareça, escolhemos estar nesta relação.
Adoro o esporte, pois ele permite que se revelem aspectos nobres da nossa humanidade, assim como na religião. Sem colocá-las numa mesma categoria, são experiências que nos forçam a ser além do que sabemos sobre nós mesmos. Assim reconheço também o maternar para mim e para tantas outras mulheres que invocam minha admiração.
Não estou trazendo esse tema para questionar ou julgar a decisão de uma atleta. Existe um contexto, uma história de vida que só conhecemos parcialmente e consequências que provavelmente não serão divulgadas pela mídia, depois que essa onda passar.
Se a questão fundamental desta temática é a saúde mental preciso fazer um alerta. Desistir não cura. Desistir adia a oportunidade de entrar em contato com partes bastante desconfortáveis da vida e que precisamos aprender a integrar. A frustração, a vulnerabilidade, a imperfeição, a decepção, a impotência pode, para algumas pessoas proporcionar uma experiência devastadora e para outras uma oportunidade de integração, expansão e aceitação, no esporte, na religião, no maternar ou na vida.
Houve momentos muito difíceis que vivi no meu próprio maternar e que acompanho na vida de muitas mulheres. Suponho que a impossibilidade de desistir trouxe uma chance de transformação real, nada fácil e simples, mas profunda e estruturante. O fim do túnel. Aquela contração dolorida e necessária para uma nova vida.
A saúde mental deve ser promovida através de estratégias para o autocuidado, autoconhecimento e um ambiente de segurança emocional para que se possa entrar em contato com sentimentos desagradáveis. Desistir nos mantêm nessa tortura de estar onde nunca estivemos sob nossas luzes ou sombras.


