A adaptação à nova vida que surge com a chegada de um bebê está longe de ser uma tarefa fácil. Se formos honestas com os nossos bastidores, há horas em que a vontade que dá é a de fugir, de voltar o filme da vida algumas cenas para trás, ou simplesmente congelar o tempo para fazer uma pausa merecida, recuperar as energias e só então retomar o papel de mãe.
Hoje, felizmente, conquistamos a liberdade de falar sobre a maternidade sem filtros românticos ou ingênuos. Existe um movimento fundamental e uma autorização social que, aos poucos, vêm tomando espaço na internet, nos livros e nos consultórios. Esse espaço nos permite escancarar os perrengues que nunca poderíamos imaginar antes de viver a experiência na pele; dores que antigamente ficavam veladas, minimizando o tamanho das renúncias feitas e a magnitude do altruísmo adquirido pelas mulheres.
No entanto, como psicóloga, preciso fazer um alerta clínico importante: ao mesmo tempo em que acolhemos essa frustração e essa desafiadora realidade, precisamos cuidar para não experimentar um sofrimento que é muito maior, mais genérico e mais pesado do que aquele que de fato acontece na sua própria vida.
O “corpo de dor” materno e a armadilha do senso comum
No livro *O Despertar de uma Nova Consciência*, o autor Eckhart Tolle dedica um capítulo inteiro para explicar um fenômeno psicológico e espiritual chamado corpo de dor.
Esse conceito descreve uma instância onde nos conectamos, de forma totalmente inconsciente, com pessoas que compartilham de um campo energético de emoções muito antigas e mal resolvidas. É um corpo de dor emocional que, à medida que nutre a nossa infelicidade atual, também se alimenta dela. Na parentalidade, corremos o risco de nos sintonizar com um “corpo de dor coletivo” da maternidade — uma amargura generalizada por uma condição, e não pela experiência viva do aqui e agora.
Quando caímos nessa armadilha, passamos a viver a nossa rotina com o bebê sob a influência de dores do passado, de traumas geracionais ou do esgotamento alheio, e não baseadas na nossa realidade presente.
Trago esse questionamento para ampliar o nosso olhar e convidar você a fazer uma verificação interna: *será que os seus perrengues diários são justificativas reais para o seu cansaço, ou as suas reações estão carregando emoções que, no fundo, não são suas?*
Grande parte das vezes, somos tragadas por um senso comum cultural que predetermina e dita como devemos sofrer e reagir diante das dificuldades da criação.
O cansaço real versus a narrativa do sofrimento
Observe o seu momento presente com atenção plena. Às vezes, a ideia mental e a cobrança social de que “estamos sem dormir e que a vida de mãe é um martírio” nos fazem sofrer infinitamente mais do que o fato biológico em si de termos dormido poucas horas.
Essa narrativa mental nos mantém aprisionadas e paralisadas no problema, roubando-nos a clareza e as chances de encontrar alternativas criativas para solucionar e aliviar a nossa vida no aqui e agora. Uma coisa é o cansaço do corpo, que pede descanso; outra coisa é o martírio da mente, que gera desespero.
Consegue compreender a sutil e profunda diferença?
Romper com o romantismo da maternidade é um passo libertador. Mas o passo seguinte, e ainda mais maduro, é não permitir que a crueza da realidade se transforme em um voto de sofrimento eterno. Olhe para o seu filho hoje, respire fundo e tente separar o que é a sua rotina real daquilo que é apenas o eco da dor do mundo.


