Muitos de nós já temos plena consciência da importância vital do acompanhamento médico e obstétrico durante a gestação. O pré-natal é amplamente reconhecido como um instrumento indispensável de prevenção, cuidado e triagem de possíveis intercorrências físicas. No entanto, quando olhamos para a saúde das mulheres nesse período, percebemos que ainda se fala muito pouco sobre o aspecto emocional e a necessidade urgente de uma rede de apoio terapêutico.
É bem provável que essa demanda invisível chegue primeiro aos consultórios dos obstetras. Afinal, a mulher sente uma necessidade profunda de compreender todas as alterações avassaladoras que vive, simultaneamente, no corpo e na alma.
Contudo, para além do cuidado clínico com o corpo, essa demanda precisa ser acolhida e encaminhada a profissionais da psicologia que possam oferecer um suporte mais próximo, direcionado e terapêutico.
A duração indeterminada do pós-parto
Diferente da gestação, que tem um marco final muito claro com o nascimento do bebê, o puerpério emocional tem duração indeterminada.
A medicina delimita a parte física — que diz respeito à involução uterina e ao sangramento que sucede a saída da placenta — estabelecendo o seu fim por volta dos quarenta dias. Mas o processo psíquico dessa transformação extrapola, por meses ou anos, o tempo de recuperação do corpo físico.
Podemos compreender o puerpério de forma similar à crise da adolescência. O ciclo do adolescente tem um início biológico com a puberdade, mas só se finaliza quando o jovem se reconhece e é validado em um novo papel social.
A recém-mãe atravessa uma crise de identidade parecida: o processo começa na gestação e só terminará quando ela se sentir verdadeiramente integrada, reconhecida e segura no papel que agora ocupa.
Esse tempo subjetivo ninguém conhece a priori. Não existem regras: há mulheres que só conseguem elaborar e encerrar esse ciclo de transição com a chegada de um segundo filho.
Cuidar da mãe é proteger o bebê
O acompanhamento psicológico no pós-parto não serve para “consertar” um problema, mas sim para ajudar a mulher a elaborar e se entregar a esse processo de metamorfose único em sua vida. O suporte terapêutico permite que ela saia dessa travessia mais consciente, integrada e resiliente, reduzindo drasticamente os riscos de enfrentar um burnout parental ou outros quadros de adoecimento mental, como a depressão pós-parto.
Dentro da perspectiva relacional e do desenvolvimento infantil, precisamos sempre lembrar: cuidar da saúde emocional da mãe é também cuidar do patrimônio emocional do bebê. O bem-estar da díade mãe-bebê é indissociável.
O apoio como um recurso natural, não como falha
Esse conhecimento precisa ser amplamente disseminado para que as mães não demorem a procurar ajuda especializada nos momentos de sobrecarga. E, acima de tudo, para que elas curem a ideia equivocada de que buscar suporte psicológico é um sinal de que não são suficientemente capazes ou fortes.
Precisamos, urgentemente, mudar a cultura vigente. Receber apoio emocional e psíquico deve ser tratado como um recurso natural e um direito de toda mãe, e nunca como um problema individualizado ou um fracasso pessoal.
A transformação da parentalidade começa quando entendemos que ninguém precisa — e nem deve — sustentar um novo ciclo de vida inteiramente sozinha.


