A sacralidade do nascimento e o poder parental: por que o início define o nosso futuro
Parentalidade 30 de março de 2021 4 min de leitura

A sacralidade do nascimento e o poder parental: por que o início define o nosso futuro

Para mim, logo na minha primeira experiência com a maternidade, era simplesmente inadmissível a possibilidade de afastarem o meu bebê de mim após o nascimento. Eu não concebia que sequer tocassem naquele corpo pequeno sem uma necessidade médica extrema. Tudo me parecia tão sagrado, tão transcendental.

Afinal, só eu havia esperado e nutrido em meu ventre aquele ser. Eu sabia, lá no fundo da minha alma, que nenhuma outra pessoa no mundo, por maior que fosse a sua empatia ou o seu preparo técnico, seria capaz de valorizar a magnitude daquele evento da mesma forma que eu.

Foi através dessa constatação visceral que me tornei a profissional e a ativista que sou hoje: alguém que luta incansavelmente para que cada díade — cada mãe e cada bebê — seja respeitada em sua potência máxima. Eu não permito que nada atrapalhe o destino deles. Nem a cultura, nem o sistema, nem eu mesma.

42 horas de parto e uma certeza para a vida

Esse fato, que se repetiu de formas diferentes por cinco vezes na minha vida, ilustra o valor primordial da minha existência e a espinha dorsal da minha forma de trabalhar no consultório e no **ParentalLab**:

Os pais são as maiores autoridades diante de seus filhos e devem assumir, com total responsabilidade e consciência, essa missão. Quanto mais conscientes da importância desse lugar de soberania os pais estão, mais blindados e protegidos os filhos ficam contra as neuroses e violências do mundo.

Se eu somar o tempo de trabalho de parto de cada um dos meus cinco filhos, chegamos a um resultado de **42 horas**. E quer saber o dado mais curioso do ponto de vista psicológico? Não há um único dia da minha vida em que eu me recorde da dor física daquelas horas. Em contrapartida, não há um dia em que eu não celebre a oportunidade e a firmeza de tê-los mantido exclusivamente em meus braços nos seus primeiros dias de vida.

A técnica deve servir à vida, não ao ego

Todos os pais, mães e bebês deveriam ter esse direito sagrado preservado: o direito ao vínculo ininterrupto, o tempo de se reconhecerem na intimidade e o espaço para iniciarem a sua vida juntos, sem interferências externas desnecessárias e sentindo-se plenamente capazes.

A nossa ciência, a nossa técnica e os nossos recursos médicos modernos devem estar a serviço de oferecer qualidade e segurança a esse momento crucial para toda a humanidade. Eles devem ser usados com inteligência, sensibilidade e, acima de tudo, “sem ego”.

O nascimento não é um evento mecânico de linha de produção; o nascimento define o nosso futuro enquanto humanidade. A forma como acolhemos quem chega ao mundo determina a saúde mental da sociedade de amanhã.

A não violência é uma recusa à inércia

Eu escolhi, há muitos anos, que não consigo submeter nem a mim e nem os meus filhos a um modus operandi institucionalizado que não traz felicidade a ninguém — um sistema que apenas mantém o conforto alienante de quem prefere não se confrontar com a realidade e prefere acomodar-se diante do medo.

Eu sempre vou lutar, com a minha voz e com a minha prática clínica, pelo que me importa de verdade.

E você? Tem tido a coragem de lutar pelos seus valores e pela forma como deseja guiar a sua família, ou prefere seguir no movimento confortável da inércia — aquela engrenagem que não te cansa, mas que também não te leva a lugar algum?

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.