Esgotamento materno: quando a culpa quase prejudica a família e o nascimento de uma nova rota
Bem-estar 29 de março de 2021 4 min de leitura

Esgotamento materno: quando a culpa quase prejudica a família e o nascimento de uma nova rota

Houve um tempo em que eu já era mãe de três crianças e sofria profundamente com uma rotina de cuidados que parecia não ter fim. Nada me nutria na relação com eles; ao contrário, eu me sentia completamente esvaída de energia. Lembro-me perfeitamente de desejar me afastar, nem que fosse por um instante, apenas para recuperar a minha própria pele e conseguir suportar o toque físico.

Ao mesmo tempo em que sentia essa necessidade física de isolamento, a culpa me consumia por dentro. Eu não acreditava que outra pessoa no mundo fosse capaz de amar e respeitar os meus filhos mais do que eu mesma, e essa centralização me esgotava a cada dia um pouco mais.

Cheguei a um buraco tão fundo que quase pus tudo a perder. Todo o meu esforço quase se desfez em um instante. E foi nesse exato momento de crise extrema, quando me vi desobrigada e temporariamente impedida de cuidar das crianças, que surgiu a constatação nua e crua do impacto real que o meu colapso teria na vida deles.

Foi diante da clareza dessa possível consequência que eu finalmente consegui aceitar a minha realidade. Tomei uma decisão consciente: escolhi cuidar deles, mas entendi que precisava fazer isso direito.

A repactuação da rotina e o resgate das minhas necessidades

Concordei e me assentei diante da demanda constante da maternidade, mas assumi um compromisso inegociável: eu não deixaria mais de lado as minhas próprias necessidades. Compreendi que me respeitar e cuidar de mim não era um ato de egoísmo, mas sim uma responsabilidade com toda a minha família e a única forma de fazer as coisas darem certo.

Para que essa nova fase funcionasse, eu e meu marido precisamos “sacudir o tapete” para que nada mais ficasse escondido ali embaixo minando a nossa energia e alimentando mágoas silenciosas. Foram conversas duras, maduras e difíceis, típicas de quem deseja sinceramente sair da zona de conforto, mudar a percepção e criar alternativas reais para trazer felicidade de volta para a vida.

Nesse processo, precisei reconhecer uma grande ferida: eu esperava reconhecimento e compensação externa por toda a minha dedicação. Foi uma frustração profunda, mas imensamente potente, reconhecer que apenas eu mesma seria capaz de atender a essas necessidades.

A imersão na natureza e o nascimento do ParentalLab

Diante disso, fiz uma pausa e decidi mudar radicalmente o ritmo da nossa história. Fomos morar em uma chácara, para buscar a proximidade e o silêncio da natureza. Dei um tempo definitivo para as cobranças e as exigências do antigo estilo de vida e, como fruto direto desse processo de nutrir a alma, nasceram mais duas meninas.

Hoje, nos tornamos sete. Mais alguns cachorros, gatos e árvores plantadas sobre as placentas das nossas caçulas, inspirando novos sonhos e nutrindo os nossos valores cotidianos. A nossa realidade se transformou por completo.

E foi exatamente como fruto dessa imersão profunda na vida familiar real, somada aos meus anos de experiência clínica acompanhando famílias em construção, que me senti inspirada a desenvolver o **ParentalLab**.

O meu objetivo principal com este programa é honrar cada um dos meus próprios perrengues e oferecer um porto seguro para apoiar as recém-mães nessa travessia tão complexa. Este espaço existe para proporcionar um caminho de profundo reconhecimento e acolhimento de tudo aquilo que as mulheres vão se tornando e transformando durante o processo de criação de seus filhos.

Essa é uma belíssima história de origem para o blog! Qual é o próximo texto que vamos lapidar juntos?

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.