Como mãe brasileira criando os meus filhos na França dos anos 2000, vivi experiências que moldaram profundamente a minha visão sobre o nascer e o cuidar. Recentemente, a minha querida amiga Karin Ballay publicou uma série de conteúdos sobre a “evolução” da amamentação na França e me convidou a resgatar as minhas memórias amamentando em Paris naquela época, onde dois dos meus filhos nasceram.
A primeira estranheza que senti na pele foi geracional: eu era uma mãe muito jovem, tinha apenas 24 anos. Em Paris, a maternidade para as mulheres locais costuma acontecer cerca de dez anos mais tarde. Desde o início, as nossas escolhas foram fora da curva e, por isso, sempre foram vistas como “estrangeiras” — tanto lá, quanto aqui no Brasil.
Por termos optado por um parto domiciliar planejado, os franceses achavam que aquilo era um traço da cultura tipicamente brasileira. Curiosamente, quando conversávamos com os brasileiros, eles acreditavam que era uma tendência europeia.
Com a amamentação, o cenário não foi diferente. Naquela época, a grande maioria das mulheres francesas amamentava apenas até os três meses de vida do bebê — tempo exato de duração da licença-maternidade local. Havia pouquíssimo suporte técnico e emocional dentro das maternidades convencionais. Felizmente, já existiam grupos de apoio independentes, como os da La Leche League. Foi frequentando esses encontros que pude me fortalecer e sustentar as escolhas que faziam mais sentido para mim e para o meu bebê. Ali, entendi na prática a urgência de uma rede de apoio.
O desconhecido e a sexualização do seio
No início da minha jornada, enfrentei muitas dificuldades práticas: empedramento, fissuras mamárias e um desconforto físico intenso. Se não fosse pelo suporte técnico e humano da minha sage-femme (a parteira que nos acompanhava), eu não teria conseguido superar esses obstáculos.
Foi um banho de realidade. Descobri que, na verdade, eu não sabia nada sobre amamentação. Embora a sociedade venda o ato de amamentar como algo puramente instintivo e natural, para mim era um terreno totalmente desconhecido. Eu não tinha lembranças de mulheres da minha família amamentando e tampouco via essas cenas acontecendo publicamente nas ruas de Paris.
Percebi, então, que a amamentação era um tabu silencioso. Constrangia as pessoas assistir a mim ou a qualquer outra mulher alimentando o próprio filho em público. Mais tarde, ao retornar, descobri que essa resistência não era uma exclusividade francesa: os brasileiros também se constrangem profundamente.
E a raiz disso é psicológica e cultural: na nossa sociedade ocidental, o seio é exaustivamente hipersexualizado. O peito feminino é visto como um objeto de desejo, e o seu uso natural e nutritivo gera desconforto. A privação que nós sofremos desse contato afetivo primário na infância acaba transformando o seio em uma necessidade estritamente sexual — algo que ele definitivamente não é na natureza e nem nas civilizações onde a amamentação em livre demanda é respeitada e permitida.
Olhando para trás, o meu desejo permanece vivo: espero sinceramente que tanto as mulheres francesas quanto as brasileiras consigam ressignificar a amamentação, devolvendo a esse momento essencial a naturalidade e o respeito que o binômio mãe-bebê tanto precisa e merece. Pelo bem da humanidade.
Espaço da nossa Aldeia
A cultura em que vivemos dita os nossos medos e os nossos tabus, mas a informação e o apoio correto nos dão a liberdade de escolher caminhos mais conectados com a nossa essência.
Como foi a sua experiência com a amamentação em público? Você sentiu o peso do olhar e do julgamento social ou conseguiu encontrar uma rede de apoio que sustentasse a sua livre demanda? Deixe o seu relato nos comentários. Vamos continuar desconstruindo esses tabus juntas na nossa aldeia!


