Carregar o bebê no colo: neurobiologia, afeto e o mito do “mal-acostumado”
Amamentação 3 de maio de 2021 4 min de leitura

Carregar o bebê no colo: neurobiologia, afeto e o mito do “mal-acostumado”

Se formos analisar friamente a rotina de enxoval moderna, o único sentido real de evitar carregar o bebê no colo ou no pano é tentar justificar o alto investimento financeiro feito no berço de última geração. Na vida real, a psicologia do desenvolvimento e a biologia humana nos mostram um cenário completamente diferente: os bebês nascem biologicamente programados para serem carregados.

Atender a essa necessidade fundamental não fará do seu filho uma criança dependente ou mimada. Pelo contrário: fará apenas com que ele se sinta plenamente acolhido, seguro e atendido em suas demandas vitais básicas.

A segurança sensorial: o que o cérebro do bebê lê?

Você sabia que o ato de ser segurado e contido pelo corpo de um adulto é o que verdadeiramente garante a experiência de segurança neurológica do bebê?

Quando o recém-nascido não está sendo embalado ou tocado, ele ativa, de forma puramente instintiva, a sensação de que foi deixado para trás ou abandonado. É uma herança da nossa evolução de milhões de anos: na natureza, bebê estático e sozinho era presa fácil. É por isso que, ao ser colocado na superfície fria do berço, ele acorda e chora; e é por isso que, ao ser pego e embalado novamente, ele imediatamente se acalma. Durante a noite, o corpo aceita não ser embalado continuamente, desde que receba o contato físico direto, a respiração e o calor de quem cuida.

O cérebro do bebê não tem a menor capacidade cognitiva de compreender que o quarto dele é seguro, que as portas estão trancadas, ou que ele está sendo monitorado por câmeras de vigilância e babás eletrônicas de alta tecnologia.

A criança experimenta a segurança de forma puramente sensorial. Ou seja, ela lê o mundo através do toque, da pressão do abraço, do balanço ritmado, do tom de voz e até dos ritmos metabólicos (os batimentos cardíacos e a respiração) do adulto que a acolhe.

Colo não estraga: o limite está no cansaço do adulto

Precisamos responder categoricamente a esse grande tabu parental: nenhum bebê será estragado por ter sido carregado no colo. Tampouco existe um cronômetro ou tempo limite estabelecido para fazer isso. São os próprios filhos que, à medida que amadurecem e ganham segurança, nos mostrarão quando estarão mais disponíveis e prontos para experimentar o berço com tranquilidade.

Negar o colo, o embalo e o contato físico íntimo é o equivalente a resignar a criança a aprender, desde muito cedo, que ela não pode contar com o adulto para ajudá-la a regular suas emoções e necessidades — uma negligência invisível que pode cobrar preços altos na saúde mental futura.

No entanto, precisamos validar os bastidores maternos. Na imensa maioria das vezes, o “limite” para não dar colo não vem da falta de amor, mas sim da exaustão do adulto. O acúmulo de tarefas domésticas, as demandas do dia a dia e o peso físico cobram o seu preço.

Uma solução ancestral para a exaustão moderna

Sabemos o quão exaustivo é para uma mãe estar com os braços constantemente ocupados e disponíveis. Por isso, em vez de se culpar por dar colo ou se forçar a deixar o bebê chorando no berço, a pergunta correta que você deve fazer a si mesma é: O que eu preciso para conseguir estar mais entregue, apoiada e descansada para essa tarefa?

É aqui que entram os carregadores de bebê (como slings e mochilas ergonômicas). Eles não são uma moda recente; eles estão ao nosso lado desde que a nossa espécie perdeu os pelos e precisou de tecidos para amarrar os filhotes junto ao corpo enquanto caminhava.

Os carregadores são ferramentas fantásticas de preservação da saúde mental materna: eles devolvem a mobilidade dos seus braços, distribuem o peso do bebê ergonomicamente e mantêm o pequeno exatamente onde ele precisa estar para se acalmar. Use sem moderação. Quanto mais carregado e acolhido for um bebê na primeira infância, melhor e mais seguro ele se sentirá na própria pele quando se tornar adulto.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.