“Cringe”: o que as gírias da Geração Z nos ensinam sobre as crises geracionais na parentalidade
Parentalidade 23 de junho de 2021 3 min de leitura

“Cringe”: o que as gírias da Geração Z nos ensinam sobre as crises geracionais na parentalidade

Parece até redundância usar esse termo em um perfil sobre parentalidade e psicologia, não é? Se você já sabe o que essa gíria sugere, certamente vai concordar. Mas, se você nunca ouviu falar, é bem provável que já tenha levado esse rótulo sem nem perceber.

A palavra “cringe” foi adotada pela Geração Z (os nascidos, em média, entre a segunda metade dos anos 90 e o início dos anos 2010) para se referir aos hábitos e manias das gerações anteriores — especialmente os *Millennials* (Geração Y) e a Geração X.

Na nossa época, o equivalente clássico seria o famoso “pagar mico”. Para os adolescentes de hoje, a tradução exata é sentir “vergonha alheia”. E convenhamos: esse é um sentimento perfeitamente natural e esperado nos filhos quando eles entram na adolescência. De uma hora para outra, nós, os pais, nos tornamos os maiores pagadores de mico do planeta. Ou seja: somos puramente “cringe”.

Para além da gíria: os novos rótulos e as redes sociais

A principal relevância de olhar para esse movimento não é apenas aprender o vocabulário jovem, mas nos alertarmos sobre os novos rótulos que circulam por aí. Eles não são necessariamente elogios, mas também não precisam ser encarados como ofensas. São apenas marcadores culturais de um novo tempo.

As redes sociais acabaram se transformando nesse grande ecossistema de encontro de tantas gerações diferentes que, apesar das piadas e dos estranhamentos, buscam pontos de contato e interesses comuns.

Entender essa linguagem pode ser uma ferramenta leve de conexão. Você pode, por exemplo, surpreender o seu “adole” usando a expressão no momento certo para que ele perceba que você está por dentro do “rolê”. Mas, para além da brincadeira, essa dinâmica traz uma reflexão clínica importante sobre as crises intergeracionais.

Flexibilidade versus Rigidez no sistema familiar

Dentro da psicologia sistêmica, sabemos que o amadurecimento de uma família exige maleabilidade. Quanto mais nós, adultos, resistimos às novidades, às gírias e às contribuições dos mais novos, mais rigidez, conflito e inadequação nós sentimos e alimentamos dentro de casa.

O movimento de olhar para os pais e sentir certa vergonha faz parte do processo de diferenciação do adolescente; ele precisa se afastar um pouco do universo dos pais para descobrir quem ele é no mundo. Quando reagimos a isso com ferro e fogo, quebramos pontes de diálogo que deveriam ficar abertas.

Por isso, o convite aqui é para relaxar. Deixe rolar, aceite o seu lugar de “pagadora de mico oficial” e evite agir com a mesma rigidez daquelas pessoas que você tanto criticava no passado. Lembre-se de que cada geração aconselha e educa com as ferramentas, recursos e experiências que tem disponíveis no seu tempo.

Mudar o tom e rir de si mesma é o melhor remédio para atravessar a adolescência dos filhos com leveza.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.