Filhos independentes: desmistificando o medo que adoece o vínculo parental
Parentalidade 18 de maio de 2021 4 min de leitura

Filhos independentes: desmistificando o medo que adoece o vínculo parental

Você já se pegou pensando se, ao acolher o choro do seu filho rapidamente ou atender prontamente às necessidades dele, você não está correndo o risco de torná-lo uma criança dependente, “mal acostumada” ou caprichosa?

Esse é um dos medos mais comuns e paralisantes que assombram a parentalidade contemporânea. No entanto, é preciso fazer um alerta clínico: a obsessão por criar filhos “independentes” desde cedo é um mito cultural que pode adoecer o vínculo e a segurança emocional.

As raízes históricas da “não dependência”

É bem provável que essa necessidade premente de formar crianças independentes seja uma influência direta de realidades vivenciadas há séculos. Ainda na Revolução Industrial, muitas famílias precisaram terceirizar os cuidados de seus filhos pequenos para prover a subsistência. A ideia de que a criança “precisa aprender a se virar” nasceu de uma necessidade econômica, não psicológica.

Temos também outros fatores transgeracionais que favorecem essa crença. Basta olharmos para modelos familiares onde gerações de mulheres precisavam, para garantir a segurança física e financeira dos filhos, manter casamentos a qualquer custo — muitas vezes, um custo emocional que as deixava mais disponíveis para o matrimônio e para as tarefas domésticas do que para um maternar sensível e presente.

O paradoxo da vulnerabilidade: somos seres gregários

Certo dia, escutei uma ponderação profunda: fomos educados e formatados para nos tornarmos independentes, contrariando toda a evolução da nossa espécie de mais de 200 milhões de anos.

Acreditar na ilusão da “não dependência” nos coloca em um estado de vulnerabilidade constante. Negar a dependência é questionar a nossa necessidade humana mais básica e ancestral de sermos gregários — de nos sentirmos seguros e acolhidos quando pertencemos a um grupo.

A realidade é que nós sempre dependemos uns dos outros. Do padeiro ao médico, do gari ao companheiro: viver em sociedade é viver em interdependência. Negar essa realidade é criar uma ilusão distorcida e dolorosa da nossa própria existência.

Se enquanto adultos somos — e desejamos ser — interdependentes, por que desejamos “adestrar” as crianças para que elas não esperem um olhar cúmplice, um encorajamento ou um acolhimento caloroso quando estão necessitadas ou com medo?

Independência baseada na privação versus Autonomia baseada no vínculo

Infelizmente, já conhecemos as consequências da tentativa forçada de independência na infância: ela se traduz em sentimentos generalizados de abandono e desamparo em nossas vidas adultas e na sociedade como um todo.

Hoje, reconhecemos cientificamente a importância crucial da primeira infância para garantir a saúde mental a longo prazo. Por isso, desejo ressaltar aqui a diferença fundamental entre uma escolha de maternar voltada para a autonomia ou voltada para a independência.

A “independência” forçada vem da privação e do adestramento de comportamentos considerados “adequados” pelos adultos, mas que não necessariamente são compatíveis com a realidade emocional e neurológica da criança. Ela aprende a não chorar porque ninguém vem, não porque o seu sofrimento acabou.

Em contrapartida, a verdadeira autonomia se constrói na qualidade do vínculo afetivo e na segurança emocional que a criança experimenta através da relação com o adulto que cuida. Uma criança que tem a sua “base segura” preenchida sente a confiança necessária para se interessar e explorar o mundo ao seu redor.

A diferença sistêmica é clara: filhos “independentes” por privação muitas vezes nunca saem verdadeiramente da órbita dos medos e necessidades dos pais; já filhos autônomos, nutridos pelo vínculo, terão a coragem de desbravar outros universos próprios.

Nós somos a ponte que permite que eles voem, não a gaiola que os ensina a não querer voar.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.