Quando pensamos no desenvolvimento motor dos nossos filhos, a ansiedade cultural muitas vezes nos empurra a querer “ajudar” o bebê a sentar, a ficar de pé ou a andar antes do tempo. No entanto, a ciência e a observação clínica nos mostram que o maior presente que podemos dar a um recém-nascido é, paradoxalmente, a liberdade de não ser apressado.
Para que um bebê tenha a real possibilidade de explorar o seu próprio corpo e o espaço ao redor, a posição mais segura, ergonômica e natural que devemos oferecer a ele é deitá-lo de barriga para cima (em decúbito dorsal) sobre uma superfície plana e firme.
Essa postura inicial é a que permite a maior quantidade de explorações motoras espontâneas, sem que a criança seja atrapalhada por acessórios desnecessários ou que sinta medo e insegurança ao ser colocada em uma posição para a qual seu sistema nervoso ainda não está maduro.
Muitas vezes, na tentativa de dar conforto, os pais colocam uma simples almofada ou travesseiro embaixo da cabeça do bebê nessa fase. Contudo, esse pequeno gesto pode atrapalhar o alinhamento da coluna cervical e comprometer a sensação de autonomia e segurança que a criança precisa experimentar para girar a cabeça e os ombros livremente. Essas observações preciosas são extraídas do maravilhoso e revolucionário trabalho da pediatra húngara Dra. Emmi Pikler.
A ginástica espontânea e a preparação do corpo
Com o passar dos dias e meses que sucedem o nascimento, testemunhamos mudanças fascinantes na rotina do bebê: o tempo de sono se reorganiza, a duração das mamadas muda e o olhar ganha a capacidade de se fixar e acompanhar objetos em movimento.
É nesse processo que, em um determinado momento, percebemos que ele aceita e desfruta de ser colocado deitado de costas para explorar o mundo com alegria e satisfação.
Essas qualidades de contentamento no chão são essenciais para o desenvolvimento integral. No início, os movimentos das pernas e braços nos parecerão aleatórios, desordenados e não intencionais. Mas não se engane: é a partir dessa “ginástica intensa” e espontânea que o tônus muscular do bebê vai se preparando. É batendo as perninhas e alcançando os pés que ele adquire a capacidade futura de se colocar e se retirar de novas posturas por conta própria. Cada sutil movimento é o alicerce invisível para a construção da próxima posição.
As primeiras “corridinhas” no ar, com as pernas elevadas, são o ensaio preparatório para que, posteriormente, o bebê consiga rodar os ombros, o quadril e finalmente rolar, colocando-se de barriga para baixo.
Pode ser que, na primeira vez que consiga rolar, ele se surpreenda com a mudança de perspectiva e ainda precise do seu auxílio afetuoso para voltar à posição inicial. Quando isso acontecer, faça o retorno com calma, sem pressa, e nunca exija que o bebê permaneça em uma postura por mais tempo do que ele demonstra capacidade de sustentar confortavelmente.
Não antecipe etapas: o vínculo através do respeito ao ritmo
Dentro da perspectiva Pikleriana, não é necessário e nem aconselhado colocar o bebê em posições que ele ainda não conquistou a partir de seu próprio esforço e capacidade.
Sentar um bebê que ainda não sabe se sentar sozinho, ou escorá-lo com almofadas, força uma estrutura óssea e muscular que não está pronta. Mais do que isso, gera uma sensação de desamparo e passividade: a criança fica presa em uma postura da qual ela não sabe como sair.
Quando respeitamos o tempo do chão e da livre exploração, não estamos oferecendo apenas a chance de desenvolver uma musculatura saudável. Estamos falando de saúde mental: da aquisição de autonomia, segurança e confiança que a criança levará para o resto da vida. Ela aprende, desde o berço, que o seu corpo é capaz e que o mundo é um lugar seguro para ser desbravado no seu próprio ritmo.


