Depressão pós-parto e suicídio materno: o peso das realidades silenciadas na parentalidade
Bem-estar 5 de maio de 2021 4 min de leitura

Depressão pós-parto e suicídio materno: o peso das realidades silenciadas na parentalidade

Existem facetas da maternidade que a nossa sociedade insiste em não colocar em evidência. Existe um acordo velado de silêncio que nos impede de falar abertamente sobre um dado alarmante: uma taxa significativamente alta de mulheres adoece gravemente no pós-parto.

Muito além dos dados já preocupantes de depressão perinatal, há uma realidade ainda mais devastadora que precisa ser nomeada: você sabia que, em diversos cenários globais, a taxa de suicídio materno chega a superar a mortalidade causada por hemorragias pós-parto?

O puerpério não é, e nunca foi, um mar de felicidade e realização unânimes. As mulheres levam um tempo considerável e subjetivo para conseguirem se adaptar e aceitar as transformações profundas que ocorrem em suas vidas após a chegada de um filho. E precisamos deixar algo claro, do ponto de vista clínico: não são os bebês que causam o adoecimento materno. O sofrimento nasce, na verdade, do ecossistema de condições internas e externas a que essa mulher é submetida.

A engrenagem da exaustão: o que adoece uma mãe?

Quando olhamos para os bastidores de um diagnóstico de depressão pós-parto, raramente encontramos um fator isolado. O adoecimento é o resultado de uma engrenagem implacável de vulnerabilidades:

 * A solidão estrutural: A escassez de uma rede de apoio real e a expectativa cultural de que a mulher deve “dar conta de tudo” perfeitamente e sem reclamar.

 * O desgaste integral: O esgotamento físico da privação de sono somado ao isolamento social crônico.

 * A crise relacional: Os ruídos e distanciamentos que naturalmente surgem no relacionamento conjugal durante a transição para a parentalidade.

 * O luto da identidade: O impacto financeiro, as pausas forçadas na carreira profissional e a cobrança invisível para continuar sendo tão produtiva e dedicada quanto era antes de engravidar.

Toda essa pressão gera na mulher um sentimento paralisante de insegurança e incompetência, como se o cansaço fosse um fracasso pessoal, e não uma resposta humana a um sistema sobrecarregado.

Cuidar da mãe é proteger o futuro da sociedade

É urgente pensarmos em estratégias coletivas e efetivas para alterar esse cenário de adoecimento. Dentro da psicologia do desenvolvimento, sabemos que a base da saúde mental de qualquer indivíduo é um patrimônio construído na primeira infância. Esse patrimônio é consequência direta da qualidade do vínculo afetivo e da regulação emocional que o bebê experimenta na relação com a sua mãe.

O estado de saúde mental da mulher, portanto, não é um problema estritamente individual ou familiar. O sofrimento materno gera consequências profundas e duradouras para toda a estrutura social. Se nós, enquanto comunidade, desejamos mudar o rumo do mundo e colher adultos mais saudáveis, precisamos urgentemente aprender a cuidar de quem cuida de todo o mundo.

Rompendo o silêncio: Conheça o Maio Furta-cor

A conscientização é a nossa principal ferramenta de prevenção. Movimentos como a campanha #MaioFurtaCor nasceram justamente para dar voz a essa causa, tirando a saúde mental materna da invisibilidade e transformando o sofrimento solitário em um debate público e acolhedor.

A cor furta-cor representa a maternidade: conforme a luz bate, ela altera sua tonalidade, mostrando que não há uma cor única, mas uma pluralidade de fases, sentimentos e transformações que merecem ser respeitados.

Se você se identifica com essa dor, saiba que o suporte profissional não é um sinal de fraqueza, mas o recurso mais natural e vital para proteger a sua vida e o futuro da sua família. Você não precisa viver essa travessia no escuro.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.