Como conseguir atender a necessidades tão radicalmente distintas de duas crianças ao mesmo tempo? E mais do que isso: como fazer isso de uma maneira que consiga ser prazerosa e leve para você também?
Hoje a Cora estava dodoizinha. Em geral, quando os pequenos começam a ficar mais “chatinhos” e dengosos, eu já sei, pela experiência, que é bem provável que algum sintoma esteja prestes a aparecer no corpo físico. Dito e feito. Acabei passando duas horas trancada com ela no quarto, em meio a um choro inconsolável.
Enquanto isso, a Morena queria e precisava desesperadamente brincar lá fora. Ela já tinha esperado pacientemente por bastante tempo, já tinha inventado várias brincadeiras sozinhas dentro de casa, mas agora demandava companhia e movimento. E, naquele exato momento da rotina, eu não tinha absolutamente ninguém por perto para me ajudar a dividir os cuidados.
A solução nasceu do improviso e do colo: amarrei a Cora no sling. O contato pele a pele e o limite do pano trouxeram a ela um reconforto imediato; o choro cessou e ela se acalmou. Com a menor aconchegada ao meu peito, consegui ir para a cozinha fazer pão com a Morena e, logo em seguida, saímos para brincar no quintal. Eu ninava a Cora no compasso dos passos enquanto atendia ao chamado de expansão da irmã.
A sacralidade de dar nome às necessidades
Caminhando com as duas, me peguei refletindo sobre tantas coisas… Pensei sobre o quanto nós somos capazes de trazer um alívio genuíno para o mal-estar e para as dores físicas das crianças apenas através do reconforto do toque, da nossa presença consciente e do amparo emocional.
Quando estamos falando sobre o universo das necessidades infantis, a melhor e mais respeitosa opção sempre será nomeá-las e chancelá-las. Conseguir atendê-las é um prazer à parte. Fico profundamente feliz e realizada quando me sinto instrumentalizada e capaz de ler os meus filhos e suprir essas demandas sem adoecer o ambiente.
No entanto, a maturidade também nos obriga a olhar para trás e reconhecer os nossos tropeços. Sei que, em alguns momentos da minha jornada na maternidade, talvez eu tenha tentado, sem perceber, convencer uma criança de que a necessidade dela era inadequada ou “exagerada” só porque a demanda do irmão parecia ser mais urgente ou grave aos olhos do cansaço adulto.
Hierarquizar o sentimento dos filhos é uma armadilha. Compreender o contexto e gerenciar o tempo é uma habilidade que só devemos cobrar de nós mesmos quando somos adultos. Na infância, a lógica é outra: é fundamental que cada criança cresça com a certeza absoluta de que todas as suas necessidades são legítimas, importantes e bem-vindas no coração dos pais. Às vezes, por pura limitação humana ou falta de braço na rotina, nós não conseguiremos acompanhá-las ou atendê-las no compasso que elas gostariam — mas deixar de atender por impossibilidade prática é um cenário completamente diferente de invalidar o que elas estão sentindo.
Espaço da nossa Aldeia
Acolher a pluralidade dos filhos sem anular a individualidade de cada um exige que a gente abra mão de manuais rígidos e aprenda a habitar o tempo presente com criatividade.
Como tem sido na sua casa o desafio de equilibrar as demandas de mais de um filho quando os imprevistos da rotina ou as doenças aparecem? Você já se pegou tentando convencer o seu filho maior de que o desejo dele era “menos importante” diante da urgência do menor? Deixe a sua vivência nos comentários. Vamos continuar trocando forças e aprendendo a equilibrar os nossos pratos juntas na nossa aldeia!


