Tem dias em que eu simplesmente não estou legal. Não consigo identificar exatamente o porquê, mas sinto uma necessidade visceral de silêncio, de recolhimento, de ficar quieta no meu canto. Curiosamente, parece que são exatamente nesses dias de vulnerabilidade que os filhos mais me chamam, mais me solicitam, mais fazem perguntas e testam os limites.
Nesses momentos, a rotina parece desandar por completo. Por muito tempo, alimentei a dolorosa sensação de que estava sendo punida pelas crianças com as consequências de não conseguir estar bem.
No entanto, o estudo e a prática clínica me fizeram compreender a verdadeira engrenagem por trás desse comportamento: as crianças não estão nos punindo; elas estão, de fato, buscando fazer qualquer coisa ao seu alcance para nos trazer de volta para o eixo. Elas sentem o nosso distanciamento e orbitam ao nosso redor na tentativa legítima de nos fazer sentir melhor. Essa é a intenção oculta. Como o bem-estar e a segurança delas dependem da nossa estabilidade, o nosso mal-estar gera nelas uma urgência silenciosa de reparação.
O longo trabalho de dar nome ao sentir
Quando mudei o meu olhar, mudei também a minha postura. Comecei a verbalizar com clareza para os meus filhos como eu estava me sentindo e o que eu precisava naquele momento. E esse, por si só, foi um longo e profundo trabalho de autoeducação.
Afinal, na maternidade consciente, não adianta absolutamente nada fingir ou usar a velha máscara de que está tudo bem. As crianças conseguem ver a nossa alma; elas captam a incongruência entre o nosso discurso forçado e a nossa energia real.
Pude, então, clarear o cenário para eles: expliquei que eu sou a adulta da relação, que eu sou grande e que tenho total capacidade de cuidar de mim mesma. Mostrei que, às vezes, eu preciso apenas de um tempinho isolada para conseguir me cuidar, me acolher e me estabilizar.
Essa simples mudança de postura transformou a nossa dinâmica. Achei que melhorou imensamente para mim, porque ganhei o espaço que precisava, e percebi que liberou um peso enorme das costas deles. Eles não precisam mais gastar energia ficando em função do meu mal-estar ou tentando adivinhar como me salvar. E o mais bonito é que, sem a pressão de esconder ou de ser salva, o meu processo de regulação acaba passando muito mais rápido. No fim das contas, ninguém é responsável por como nós nos sentimos a não ser nós mesmos.
Espaço da nossa Aldeia
Aprender a colocar limites e comunicar a nossa vulnerabilidade de forma madura ensina os nossos filhos a respeitarem o espaço do outro e a compreenderem que os adultos também têm dias difíceis.
Como tem sido para você lidar com a culpa naqueles dias em que a sua energia está baixa e você não consegue ser a mãe disponível que gostaria? Você consegue verbalizar o seu cansaço para os seus filhos ou ainda tenta engolir o sentimento e fingir que está tudo bem até explodir? Compartilhe a sua caminhada nos comentários. Vamos continuar aprendendo a nos acolher juntas na nossa aldeia!


