Você já parou para pensar que as pessoas que cometem as maiores atrocidades no mundo hoje já foram, um dia, filhos? Já foram crianças pequenas?
Quando me deparo com esse pensamento, não consigo de forma alguma minimizar a imensa responsabilidade que nós, como sociedade, temos em direção às crianças e aos pais. Uma civilização verdadeiramente comprometida com a saúde e a paz do futuro deveria, de forma natural, interessar-se em avaliar as decisões educativas do passado e apoiar ativamente as mudanças estruturais necessárias para colhermos outros resultados adiante.
Nós passamos os dias reclamando do caos, da violência e de como as coisas andam no mundo, mas falhamos miseravelmente em questionar as decisões microfilias que nos trouxeram exatamente a este resultado. É de uma incoerência sem tamanho.
Precisamos dar o nome correto às coisas: crianças que apanham não são corrigidas; elas são ensinadas, pelo exemplo físico, a esperar a sua vez de exercer o poder e a força sobre alguém que considerem inferior. Crianças que crescem desamparadas afetivamente não conseguem encontrar segurança em lugar algum depois de adultas. Crianças que sofrem abusos invisíveis permanecem aprisionadas no papel de vítimas, congeladas no tempo, esperando uma reparação que o mundo externo nunca poderá dar.
A magia do nascer e a urgência do apoio
Os nossos questionamentos coletivos hoje deveriam se concentrar em uma única e urgente direção: como podemos apoiar as novas famílias para que elas tenham as condições emocionais mínimas para criarem crianças capazes de viver e sustentar um futuro mais humano e digno? O que cada um de nós, individualmente, pode e deve fazer por si mesmo e pelos que estão vindo?
Sabemos que, quando nasce um bebê, a família extensa e o entorno social ficam mais sensibilizados. Há uma abertura genuína para reavaliar a rotina, fazer diferente e recalcular as rotas — ouvimos muito esse desejo legítimo dos novos pais. Por isso, cada criança que chega ao mundo representa, de fato, uma lufada de esperança. Os bebês possuem essa magia intrínseca de amolecer as nossas defesas.
A questão é: como nós estamos aproveitando esse momento de vulnerabilidade para abraçar e amparar essas novas famílias?
Um pedido de liberação ao passado
Será que nós conseguimos aceitar, com maturidade, que as decisões educativas do passado são as grandes responsáveis pelas mazelas que colhemos no presente? Conseguimos tolerar e apoiar que as decisões de hoje sejam completamente diferentes das que os nossos pais tomaram conosco, ou a nossa arrogância e a nossa culpa infantil de ter cometido erros nos impedem de abrir espaço para o novo?
Com muita reverência, peço gentilmente o apoio de todos aqueles que nos trouxeram até aqui. A todos os pais e avós que nos deram a vida, da forma como foi possível e com as ferramentas que possuíam na época: que nos liberem e nos abençoem para fazermos a nossa parte. Que nos permitam assumir a autoria e o cuidado das nossas próprias decisões hoje. Há de valer a pena.
Espaço da nossa Aldeia
Compreender a parentalidade como a base da estrutura social é o que nos dá a coragem de romper com as heranças pesadas e construir caminhos de não violência.
Como tem sido para você sustentar escolhas de criação mais respeitosas diante dos olhares e julgamentos das gerações que vieram antes? Você sente que a sua família de origem te dá liberdade para fazer diferente ou ainda há uma cobrança silenciosa para que você repita os mesmos padrões do passado? Compartilhe a sua voz e a sua história nos comentários. Seguimos juntas, de mãos dadas, pela construção de um futuro mais humano na nossa aldeia!


