Sacrifício materno e o comportamento infantil: as perguntas incômodas que precisamos fazer
Parentalidade 11 de junho de 2019 4 min de leitura

Sacrifício materno e o comportamento infantil: as perguntas incômodas que precisamos fazer

Qual é a medida certa de sacrifício que uma mulher deve fazer em sua jornada na maternidade? Ou você, sinceramente, acredita que seja possível cuidar de um ser humano que depende totalmente de você sem abrir mão de parcelas significativas de si mesma?

Chegam constantemente ao meu consultório mães profundamente aflitas e preocupadas com o comportamento dos seus filhos. São crianças que, segundo os relatos, se comportam mal na escola, agridem os colegas, perdem a cabeça por qualquer motivo ou simplesmente não param quietas um minuto sequer. Muitas dessas famílias já peregrinaram por diversos profissionais em busca de um diagnóstico, investigando a aparição de mais algum transtorno da moda.

Quando começo a interrogá-las, essas mães me certificam, com muita convicção, de que são excelentes cuidadoras. Afirmam que dão absolutamente tudo o que uma criança precisa para crescer bem.

É exatamente nesse ponto que eu faço as perguntas que incomodam demais:

As respostas, normalmente, revelam o verdadeiro cenário: “Eu não gosto de sol, por isso não vamos ao parque”; “Ele tem televisão e videogame no quarto, e eu prefiro que ele jogue, porque senão ele fica perturbando dentro do apartamento”; “Não sobra tempo para o ócio, porque ele pratica muitas atividades extracurriculares”; “Ele tem apenas seis anos”. E a mãe segue sofrendo, convicta de que o seu próprio filho se tornou um grande problema.

Os artifícios da negligência moderna

Muitas vezes, sem perceber, essa mãe oferece tudo o que o filho precisa apenas para que ele não a incomode na rotina. O que ela não consegue enxergar é que, agindo assim, o incômodo e o trabalho a longo prazo só aumentam.

É um erro crasso e arrogante acharmos que as necessidades básicas das crianças de hoje são diferentes das necessidades das crianças do passado. Biologicamente e emocionalmente, as demandas estruturais da infância continuam exatamente as mesmas: movimento, natureza, presença e contorno. O que mudou, na verdade, foram os artifícios modernos que nós criamos para negligenciar essas demandas com uma roupagem de praticidade.

A grande questão que se impõe é: como nós, carregando as marcas das crianças negligenciadas que um dia fomos, conseguiremos atender com qualidade às necessidades dos filhos que vêm de nós? Como podemos quebrar esse ciclo repetitivo de carência e violência oculta?

Precisamos, urgentemente, parar de rotular as nossas crianças como problemáticas. O convite aqui é para fazermos um sacrifício consciente. É impossível medir a quantidade exata de sacrifício que uma mãe faz e ainda precisará fazer para garantir a satisfação emocional e o desenvolvimento saudável de uma criança. Mas se nos apoiarmos mutuamente nesse sentido, ajudando os pais a darem o que os filhos de fato precisam, essa caminhada ganha sentido. Mas para exigir essa entrega, precisamos também falar abertamente disso e cuidar, com urgência, de quem cuida.

Espaço da nossa Aldeia

Olhar de frente para a rotina que oferecemos aos nossos filhos exige a maturidade de reconhecer que, muitas vezes, o comportamento difícil da criança é apenas um pedido de socorro contra o confinamento e o excesso de estímulos artificiais.

Você já se pegou oferecendo uma tela ou um doce apenas para conseguir um minuto de silêncio e evitar o incômodo de lidar com a energia natural do seu filho? Como tem sido para você equilibrar os seus gostos e confortos pessoais com as necessidades reais de movimento, sol e natureza que a infância exige? Deixe a sua reflexão nos comentários. Vamos encarar essas perguntas incômodas juntas na nossa aldeia!

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.