Na bolsa, eu carregava uma quantidade enorme de brinquedos específicos para a idade do meu filho. Alguns deles eu mesma havia confeccionado à mão, alimentando toda a expectativa de que se tornariam os seus preferidos na hora do passeio. No entanto, ao colocá-lo no chão, o interesse dele se direcionou completamente para fora do tapetinho, muito além daqueles objetos planejados.
Diante de uma cena como essa, o adulto se depara com um dilema silencioso: devo limitá-lo às experiências que eu julguei adequadas — e, com isso, podar as suas asas e a sua capacidade genuína de descobrir do que gosta — ou aceito o convite para ser sua companheira de exploração, deixando-me maravilhar pelo inesperado?
Quem é, afinal, esse filho que está diante de nós? Como podemos verdadeiramente descobri-lo se não for através da observação atenta de suas próprias vontades e interesses espontâneos?
O perigo de prender os filhos nos nossos sonhos
Se desejarmos forçar uma criança a caber dentro das nossas projeções e sonhos ideais, o horizonte dela já nascerá tragicamente limitado. Mas se, em vez disso, escolhermos apenas aceitar o ritmo real? Abre-se aí a oportunidade para viver uma deliciosa aventura.
A tentativa de manipular ou direcionar de forma obsessiva o interesse de uma criança dificilmente acontece sem causar algum dano ao seu desenvolvimento. Apenas o próprio indivíduo, desde muito pequeno, reconhece as suas reais inclinações, revelando-as ao mundo por meio do seu comportamento e da sua pesquisa livre pelo espaço.
Quando o nosso objetivo é ser cúmplice do desabrochar da autonomia e da construção da autoestima — lembrando que a autoestima é um território íntimo que só a própria pessoa pode edificar para si —, o nosso papel principal deve ser o de ver, testemunhar e reconhecer este ser em sua singularidade.
Presença para celebrar o “eu consigo”
Essa postura não significa cruzar os braços ou deixar de oferecer oportunidades e estímulos ricos ao redor. Significa, sim, respeitar profundamente o tempo e o interesse da criança em aceitar ou recusar essas propostas.
E, quando o encontro com o mundo acontece de forma autêntica, tudo o que precisamos fazer é estar genuinamente presentes. Estar ali para celebrar quando aquele olhar orgulhoso de “eu consigo” ou de “olha o que eu descobri” procurar a nossa presença e o nosso contorno afetivo no ambiente.
Abrir mão da exigência de que os filhos correspondam às nossas expectativas é o que nos devolve a liberdade interna. É essa leveza que nos permite, afinal, habitar esses esplêndidos e transformadores encontros com a infância real.
Espaço da nossa Aldeia
Mudar o foco do “dar ordens e direcionar” para o “observar e validar” exige que o adulto desacelere o seu próprio ritmo e aprenda a tolerar o ócio e a novidade.
Você já se pegou frustrada ao ver que o seu filho preferiu explorar uma caixa de papelão ou uma folha seca em vez do brinquedo caro ou planejado que você ofereceu? Como tem sido o exercício de dar um passo atrás e simplesmente testemunhar as descobertas espontâneas dele? Deixe a sua experiência nos comentários!


