Compartilhar os cuidados de uma criança é a maneira mais sustentável, equilibrada e saudável de viver a parentalidade em nossa realidade atual. Se olharmos para trás, para a história das comunidades, era perfeitamente natural que as crianças fossem criadas por toda a “aldeia”. No entanto, mesmo com o apoio de terceiros, há uma verdade que o tempo não apaga: o lugar da mãe na vida e no desenvolvimento de cada ser humano é absolutamente insubstituível, inegociável e jamais será terceirizado.
A ciência e a psicologia do desenvolvimento já nos deram provas exaustivas do quanto a relação primeva entre mãe e filho influencia o destino, a personalidade e a saúde mental de qualquer pessoa — quer queiramos ou não, concordemos ou não, tenha sido essa relação fluida ou repleta de desafios.
Obviamente, para se desenvolver de forma plural, a criança precisa também ter outras referências afetivas e conviver com outras pessoas. Contudo, a construção desse círculo de confiança e segurança é uma ponte estabelecida, via de regra, pelo filtro e pelo colo dos pais.
Um papel de impacto social e coletivo
Carregar nos ombros uma função de tanta responsabilidade, com impactos profundos a curto, médio e longo prazo, não deveria ser um peso carregado individualmente no isolamento das paredes de uma casa. O maternar deveria ser tratado, protegido e cuidado com a máxima atenção por meio de iniciativas coletivas e conscientes da importância que essa função tem para a estrutura de toda a sociedade.
Tornar-se mãe não significa apenas ter um filho para alimentar e educar. Significa, na base das engrenagens humanas, garantir uma próxima geração socialmente saudável. Se o fruto desse trabalho é coletivo, a sustentação dele também precisa ser. Nós, enquanto comunidade, devemos dar a essa mulher as condições estruturais, emocionais e físicas necessárias para que ela exerça a sua fundamental missão de forma potente, integrada e resiliente.
Motivação através do reconhecimento
Arrisco afirmar, com base no que observamos diariamente na clínica, que uma mulher que se sente verdadeiramente enxergada e reconhecida por toda a sua dedicação e esforço para criar uma criança terá muito mais motivação, energia e disposição para fazê-lo. Ela precisa se sentir validada, e não julgada, ao receber apoio para exercer essa função.
A grande verdade é que a queixa e a dificuldade em aceitar a maternidade raramente estão no fato de se ter filhos em si. A angústia real mora na sobrecarga monumental de tarefas diárias, no acúmulo de renúncias feitas muitas vezes de forma solitária e invisível, tudo isso somado ao ruidoso processo pessoal de transformação de identidade que a mulher vive no pós-parto.
Cuidar de quem cuida: um pacto com o futuro
Sustentar o conceito de “cuidar de quem cuida” é o ato de coragem de reconhecer, de uma vez por todas, o valor inestimável que as mães geram em nossa sociedade e o quanto essa ação silenciosa transforma o ecossistema do mundo.
Se quisermos construir um futuro com adultos mais integrados, menos ansiosos e emocionalmente mais seguros, precisamos começar estendendo a mão para as mulheres que estão gerando e nutrindo a vida hoje.
A transformação da parentalidade não se faz no isolamento. Começa quando decidimos que nenhuma mãe precisa caminhar sozinha.


