“Quem pariu Mateus que embale”: o ditado popular que isola as famílias e destrói a aldeia
Apoio 29 de abril de 2021 3 min de leitura

“Quem pariu Mateus que embale”: o ditado popular que isola as famílias e destrói a aldeia

“Quem pariu Mateus que embale.” Esse dito antigo e popular nunca fez tanto sentido — e nunca causou tanto espanto — quanto no momento em que analisamos a realidade da rede de apoio materna.

Embora a expressão tenha origens históricas distantes, o que verdadeiramente nos importa é o significado prático que ela carrega em nossa cultura atual. A mensagem central que esse ditado tenta transmitir é direta e implacável: “Você criou o problema, agora assuma a responsabilidade por ele!”

Essa frase é frequentemente usada em diversos contextos para responsabilizar o autor de uma ideia ruim ou de uma proposta que se mostrou descabida no futuro. No entanto, quando essa mesma lógica é direcionada a pais que acabaram de ter seus bebês, a mensagem chega como uma sentença cruel: “Vocês quiseram ter um filho, agora lidem com isso sozinhos. Não temos nada a ver com as suas dificuldades; nós já resolvemos os nossos problemas quando tivemos os nossos filhos”.

O abandono geracional e o isolamento dos pais

Quantas gerações de recém-mães e recém-pais vêm sendo silenciosamente abandonadas para que carreguem sozinhas o peso de suas novas rotinas? Esse tipo de mentalidade afasta, julga e isola. Ela destrói completamente o sentimento de “aldeia” que tanto sabemos ser fundamental para garantir a saúde mental dos pais e a qualidade do vínculo afetivo com o bebê.

Sob o peso dessa crença, os pais perdem a coragem de pedir o que precisam. Instala-se o medo de incomodar, a vergonha de demonstrar cansaço e a falsa ideia de que pedir ajuda é um sinal de incompetência ou de fraqueza.

Será mesmo que uma criança deve ser vista como um problema individual que não diz respeito a mais ninguém além de seus pais? Em uma comunidade consciente, o nascimento de um bebê é celebrado como uma esperança de continuidade para todos. O coletivo entende que tem interesse direto em garantir que aquela engrenagem dê certo para a mãe e para o recém-nascido.

A diferença entre responsabilidade e solidão

Quantas crises familiares e adoecimentos maternos tomam proporções irreversíveis por estarem sob a influência invisível de uma crença como essa?

Muitos pais acreditam que, se pedirem auxílio, estarão de alguma forma delegando sua responsabilidade ou abrindo mão do direito sobre a criação de seus próprios filhos. Precisamos desfazer esse nó: dividir o peso do cuidado não significa terceirizar a paternidade.

Os pais são, e devem ser, os principais responsáveis por seus filhos. Eles precisam amadurecer para assumir esse lugar de autoridade afetiva. No entanto, passar por esse processo de amadurecimento não significa caminhar na mais absoluta solidão, sem suporte, sem descanso e sem uma mão estendida.

Um pacto pela desconstrução dessa crença

Só conseguimos promover mudanças reais na sociedade a partir da tomada de consciência. Compreender o impacto nocivo dessas pequenas frases do cotidiano é o primeiro passo para mudar a forma como acolhemos quem acabou de nascer no papel de mãe ou de pai.

Eu me comprometo publicamente a não passar essa frase adiante e a não alimentar essa crença de isolamento. E você, vem comigo? Vamos, juntos, criar a nossa própria aldeia, combater a solidão parental e celebrar a esperança de cada nova família que nasce.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.