O puerpério e o relacionamento conjugal: impactos, transformações e a “batata quente” das nossas dores
Casal 26 de março de 2021 4 min de leitura

O puerpério e o relacionamento conjugal: impactos, transformações e a “batata quente” das nossas dores

É muito provável que você e seu parceiro tenham se unido pela esperança de viver os momentos mais felizes das suas vidas. Vocês celebraram essa união enquanto concretizavam sonhos partilhados ou quando participavam ativamente da realização um do outro.

E, naturalmente, a chegada dos filhos surge como o marco definitivo nessa história. Afinal, é nos filhos que os pais se eternizam e permanecem vinculados para sempre. Nada parecia trazer maior promessa de felicidade do que isso.

Porém, quem já viveu ou está vivendo o puerpério sabe muito bem que, na prática cotidiana, esse advento passa longe de ser apenas aquela foto bonita e filtrada que idealizamos.

A realidade bate à porta: a mulher, que frequentemente já se sente só e entediada na rotina exaustiva, muitas vezes não encontra mais a si mesma dentro da relação conjugal. E, ao mesmo tempo em que se vê totalmente apaixonada por seu bebê, ela sente uma falta dolorosa de reencontrar o olhar daquele que sempre foi o seu maior cúmplice. A vida vira de pernas para o ar de uma hora para outra. Tudo se torna novo, denso e estranho.

O mito do primeiro ano e a estatística do susto

Se as pesquisas apontam que cerca de 75% dos divórcios acontecem antes de o primeiro filho completar um ano de vida, só nos restam duas conclusões: ou mentiram deliberadamente para nós sobre o que era a maternidade, ou a engrenagem é feita para os fortes mesmo.

Mas será que a raiz dessa ruptura mora no fato de o nosso companheiro de repente “não ser o suficiente”? Ou será que o buraco é mais embaixo?

É muito provável que a crise aconteça porque não conseguimos aceitar a nossa própria vulnerabilidade, a nossa dependência emocional temporária e a importância colossal que aquela outra pessoa assume em um momento tão marcante e fundamental.

A fissura do parto e as feridas da infância

Durante a fase adulta, nós aprendemos a camuflar e a substituir as faltas e os vazios que herdamos da nossa própria infância. Nós fazemos isso nos tornando produtivas: focando na capacidade de realizar, entregar resultados e “ser foda” no trabalho e na vida social.

Porém, o puerpério destrói essa armadura. Todo o conteúdo que ficou guardado nas nossas profundezas emocionais vai emergir, trazendo lembranças e dores antigas à tona. E isso não acontece porque estamos mais fortes ou mais capazes de lidar com traumas enquanto trocamos fraldas ou passamos horas sentadas amamentando na penumbra.

Isso acontece simplesmente porque a nossa alma sofreu uma grande e profunda fissura durante o parto, e o psicofísico leva um tempo considerável para se restaurar.

Na dificuldade latente de digerir esses conteúdos internos, nós fazemos o movimento inconsciente de transformá-los em uma “batata quente” e arremessá-los direto nos braços desse companheiro. O detalhe é que ele também está vivendo os seus próprios processos adaptativos e tem a sua própria batata esquentando nas mãos. O conflito, então, se torna inevitável.

Das noites escuras à maturidade real

Se você está vivendo esse turbilhão, o convite do **ParentalLab** hoje é para que você pare por um instante, respire e procure apoio especializado para ter a coragem de olhar de frente para essas oportunidades de cura que estão surgindo na crise.

Essas dores que emergiram não são o fim; elas são os recursos e os mapas de navegação que você precisará integrar nesta nova jornada.

A relação conjugal de vocês definitivamente não será mais a mesma de antes. Mas ela pode se tornar infinitamente mais madura, sólida e verdadeira se vocês tiverem o suporte necessário para superar juntos essas assustadoras noites escuras da alma.

Espaço da nossa Aldeia

O primeiro ano do bebê costuma ser o teste de fogo de qualquer casamento. Olhando para a sua experiência: como foi a dinâmica com o seu parceiro no puerpério? Vocês conseguiram segurar a batata quente juntos ou sentiram que a relação quase se perdeu na névoa do cansaço?

Deixe o seu relato e a sua história aqui nos comentários. Conversar sobre o lado invisível do casamento pós-filhos é o primeiro passo para curar a nossa aldeia.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.