A metamorfose do desejo no puerpério: quando a parceria acende a intimidade do casal
Casal 5 de março de 2020 3 min de leitura

A metamorfose do desejo no puerpério: quando a parceria acende a intimidade do casal

Há uma ilusão romântica de que o desejo conjugal se mantém intacto após a chegada de um filho. A realidade da trincheira parental, no entanto, é feita de noites interrompidas, comida que esfria no prato e corpos exaustos que, em um primeiro momento, recusam o toque. Mas é exatamente nesse cenário de desabamento que uma nova e profunda forma de intimidade pode se construir.

Muitas mulheres descobrem que o que volta a acender a chama interna não é mais aquela antiga atitude máscula, independente ou performática do parceiro. O magnetismo muda de lugar. O que passa a magnetizar e atrair é a doçura do gesto do homem com o bebê no colo, o sorriso bobo que amolece a barba áspera e a delicadeza de mãos calejadas operando o cuidado.

O erotismo do cuidado invisível

O corpo cansado da mãe pode até se esquivar do namoro imediato, mas o sistema nervoso relaxa — e se abre — ao perceber o movimento do outro para proteger o território familiar. Quando o parceiro assume tarefas sem esperar ordens ou pedidos, ele cresce em consideração.

Providenciar o mercado, recolher as toalhas úmidas, garantir um copo de água na madrugada ou dobrar as roupas limpas parecem ações banais. Na verdade, são demonstrações singelas de iniciativa que poupam a mente materna da exaustão gerencial. É esse amparo prático que devolve à mulher um fragmento de si mesma, permitindo que ela desça do estado de alerta para se entregar ao bebê e, eventualmente, reencontrar o parceiro no lugar de antes.

Essa postura não visa aplausos ou confetes. É o reconhecimento silencioso de todas as transformações e renúncias que a mulher aceitou ao assumir a maternidade. Essa troca fortalece a alma e substitui a solidão do puerpério pela cumplicidade de quem divide o peso da travessia.

Da carne à admiração profunda

Admitir a vulnerabilidade de querer o outro tão perto, de depender emocionalmente desse abraço para continuar conquistando o próprio maternar, pode ser assustador. Mas é nessa entrega mútua que se percebe que o homem também renuncia, se esforça e deixa antigas crenças de controle para trás para assumir o papel de provedor afetivo.

Essa fase de demandas agudas vai passar. Em breve, haverá tempo para entrelaçar as mãos e passear sem a pressa do choro. Quando esse dia chegar, a bagagem do casal não estará vazia; levará a admiração construída na superação das noites em claro.

O desejo que antes ardia apenas na urgência da carne dá lugar a algo muito mais resistente: a celebração da existência desse homem que escolheu ser parceiro, pai e, fundamentalmente, amante na vulnerabilidade.

Espaço da nossa Aldeia

Ressignificar a vida íntima do casal após os filhos exige paciência para entender que o afeto também se expressa na divisão justa da carga mental e física da casa.

Como foi a transformação da dinâmica de casal por aí após a chegada dos filhos? Você percebeu o desejo mudando de formato e se alimentando mais da parceria e do cuidado mútuo do que das antigas idealizações? Deixe a sua experiência nos comentários para fortalecermos a nossa aldeia!

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.