Foram duas horas e meia de relógio até que ela finalmente caísse no sono. O que parecia ser apenas uma noite exaustiva de resistência infantil se transformou em uma das maiores lições da minha jornada.
Antes mesmo de cruzar a porta do quarto para fazê-la dormir, o meu desejo secreto era sair dali o mais rápido possível. Eu estava tensa, esticada como uma corda de violino. Pensava que uma taça de vinho branco, logo após o dever cumprido, traria o torpor suficiente para o meu relaxamento. O problema é que a minha tensão não era apenas física; eu habitava um estado emocional nada receptivo para acolher a doçura e a agudeza de uma criança sensível.
A minha mente decidiu guerrear. Eu queria o controle absoluto da situação. O meu desejo inconsciente era de que ela simplesmente desistisse, se rendesse, abrisse mão da resistência e adormecesse para parar de dar trabalho. Mas, por sorte, a vitalidade e a lealdade dela se mantiveram firmes, mesmo diante do meu recolhimento e das minhas ameaças veladas.
O colapso da hipocrisia parental
Depois de travar essa batalha interna e perder para mim mesma, a ficha caiu. Fui inundada por um sentimento de vergonha. Senti-me pequena e, de repente, lembrei-me de mim mesma quando tinha a exata idade dela. Fui tomada por um choro calado, reprimido e perdido entre tantas distrações da vida adulta.
Chorei compulsivamente ali, no escuro, testemunhada pela cumplicidade silenciosa da minha filha. Pedi desculpas a ela e reconheci a verdade que se impunha com soberania: eu não estava bem.
O desejo dela de resistir ao sono e me fazer companhia não era pirraça; era a reação legítima da sua insegurança ao me perceber tão alterada por dentro. No momento em que desabei e deixei a verdade aparecer, nós nos envolvemos em um abraço autêntico. Sem a barreira da mentira corporal, ela adormeceu rapidamente. Ao sair do quarto, percebi que já não precisava mais do vinho. As tensões haviam se dissipado e algo muito potente se revelou.
A criança reage à realidade, não ao teatro
Aprendi ali que nós não conseguimos fingir que as coisas vão bem quando a engrenagem interna está quebrada. Tampouco podemos cair no erro de achar que precisamos estar sempre perfeitos para poupar os nossos filhos.
A criança reage a partir da sua percepção da verdadeira realidade ao redor. Nada pode ser mais angustiante para o psiquismo infantil do que intuir a verdade e ver o adulto negá-la ou distorcê-la, achando que a mentira ameniza o sofrimento. A confusão e a insegurança geradas por esse desencontro de informações — o que a criança sente versus o que o adulto finge — é o que verdadeiramente tira o sono.
Nem o nosso pior estado emocional é tão difícil de suportar para um filho quanto a nossa hipocrisia. Os filhos amam os pais e são profundamente leais a eles, inclusive na dor. Eles não nos abandonam quando estamos na pior; pelo contrário, quando nos percebem fragilizados ou desconectados, eles nos demandam mais, pedem mais atenção, acordam com frequência. É o chamado deles para que a gente volte a estar presente.
Cobrar-se estar sempre bem para evitar esses cenários é uma meta impossível. O caminho não é a perfeição, mas a coragem de assumir a nossa própria humanidade diante de quem mais nos conhece.
Espaço da nossa Aldeia
Desarmar a guarda na hora de dormir e admitir que o cansaço ou a irritação são nossos, e não da criança, exige uma honestidade brutal.
Você já passou por uma noite dessas, em que o sono do seu filho só veio depois que você mesma desabou e parou de lutar contra o relógio? Como tem sido o exercício de validar o que você está sentindo em vez de tentar vestir a máscara da calmaria? Compartilhe o seu relato aqui embaixo.


