Se você é mãe, há uma grande chance de já ter ouvido ou lido a seguinte afirmação durante o puerpério: “O bebê chora o que a mãe não chora”. Embora essa frase tente traduzir a profunda conexão emocional entre a díade, na prática ela costuma funcionar como um peso extra na mochila de culpa que as mulheres passam a carregar inconscientemente.
A reação natural de uma recém-mãe ao ouvir isso é entrar em um estado de alerta e cobrança interna: “Eu preciso ficar bem a qualquer custo para o meu bebê ficar bem”. No entanto, tentar manter uma estabilidade inabalável diante da monumental demanda física e emocional do pós-parto é um ideal hercúleo — e irreal.
O choro como alívio e regulação
Precisamos normalizar o óbvio: o choro da mãe também é uma resposta biológica e psicológica saudável para aliviar um estado extremo de tensão. Chorar não é um atestado de fragilidade, não sinaliza necessariamente um estado de depressão e, acima de tudo, não deveria ser suprimido na tentativa de fingir que tudo vai bem.
Tentar engolir o choro para proteger o bebê é uma ilusão. A comunicação com o recém-nascido não se dá por meio de discursos articulados ou de atitudes conscientemente ensaiadas. A verdade que o bebê percebe transita em um nível sensorial, invisível e profundamente verdadeiro.
O sistema nervoso do bebê é um espelho do ambiente; nós não vamos conseguir enganá-lo com palavras mansas ou com um comportamento superficialmente apropriado se por dentro houver um turbilhão.
Liberando o bebê do fardo inconsciente
Em vez de se martirizar através de uma postura culpabilizante, mantendo um ciclo vicioso de negação, você pode escolher o caminho da honestidade emocional. É perfeitamente possível — e terapeuticamente saudável — liberar o seu bebê desse peso conversando com ele.
Você pode olhar para o seu filho e comunicar, em voz alta, algo como: “Filho, eu estou passando por um momento muito sensível, exigente e às vezes assustador. O meu corpo e a minha mente estão cansados, mas eu sou a adulta da relação e eu sou capaz de lidar com isso no meu próprio tempo, usando os recursos que tenho”.
Não temos como isolar ou poupar os nossos filhos dos nossos estados emocionais, pois o vínculo é vivo. Mas podemos, sim, livrá-los do fardo inconsciente de nos fazer companhia no sofrimento ou de se manifestarem através de crises sintomáticas para que nós olhemos para aquilo que estamos reprimindo.
Acolher o filho é acolher a si mesma
O processo de aprender a acolher e decifrar o choro do seu bebê pode ser, simultaneamente, um lindo caminho de retorno para o acolhimento do seu próprio ser que chora.
As lágrimas, tanto as da mãe quanto as da criança, são ferramentas legítimas que o organismo utiliza para descarregar o excesso de estímulos e reencontrar o equilíbrio homeostático.
Permita-se chorar quando o copo transbordar. Está tudo bem. O choro não quebra o vínculo; a tentativa de mascarar a realidade é que distancia. Quando o adulto assume o seu lugar de vulnerabilidade consciente, a infância ganha o direito de apenas ser infância.


