Redes de apoio, família de origem e a coragem de construir novas relações
Apoio 14 de junho de 2019 4 min de leitura

Redes de apoio, família de origem e a coragem de construir novas relações

Dias atrás, fiz um post usando um print antigo onde eu afirmava: “Infelizmente muitas mulheres preferem continuar boas filhas e aceitar tudo o que suas mães impõem a dizer sim para sua própria intuição em relação a suas crias!”. No texto da legenda, argumentei de forma resumida que, na maioria das vezes, o apoio real que necessitamos para desempenhar a nossa maternidade de forma empoderada está nas nossas redes de apoio construídas, e não na nossa família de origem.

Usei essa imagem de propósito. Como a maioria das pessoas que me seguem me conhece pessoalmente, todos sabem que a minha mãe participa ativamente da minha vida e da rotina dos meus cinco filhos. Foi uma provocação intencional para que as pessoas parem de tomar tudo o que leem na internet como uma verdade absoluta ou uma regra matemática. A vida real tem nuances.

Lembro-me claramente do dia em que a minha mãe chegou a Paris para participar do nascimento do Rudá. Foi a primeira conversa franca que tive com ela, e confiei totalmente na capacidade dela de amadurecer aquela ideia e me respeitar. Olhei nos olhos dela e disse: “Mãe, quando eu entrar em trabalho de parto, nós vamos levar você para um hotel até ele nascer”.

Eu vi a frustração imediata no olhar dela. Mas, àquela altura, eu não podia fingir ou negar que eu não me sentiria à vontade parindo a poucos metros da companhia dela. Eu já me sentia profundamente responsável pelo bebê que nasceria e sabia exatamente qual era o ambiente que desejava para a sua chegada — e do que eu precisava para conseguir parir. Foi um divisor de águas que exigiu muita maturidade de nós duas, mas que permitiu que a nossa relação se transformasse.

O amadurecimento que vai além da biologia

Já perdi as contas de quantas vezes a minha mãe se retorceu por dentro com as minhas escolhas maternas. No entanto, ela aprendeu a respeitar as minhas decisões, mesmo quando elas eram diametralmente opostas às dela. Com o tempo, ela começou a perceber os resultados práticos, passou a me encorajar e me permitiu viver a maternidade da forma que eu acreditava ser a melhor para os meus filhos, permanecendo firme ao meu lado.

Esse processo todo foi profundamente transformador para nós duas, mas exigiu que construíssemos, do zero, uma nova relação. O simples fato de sermos mãe e filha não garantia que a nossa nova dinâmica como mãe e avó fluiria com respeito e sabedoria.

Sempre digo que, uma vez mães, nunca mais deixamos de ser. E acompanhar os filhos quando eles se tornam adultos e se transformam em pais continua sendo um dos processos mais desafiadores e transformadores da própria maternidade.

As relações biológicas, por si só, não garantem o nosso amadurecimento emocional. Precisamos continuamente — se for do nosso interesse manter esses laços vivos e saudáveis — nos adaptar e respeitar o momento e a autonomia das pessoas que amamos. Se a sua mãe não entende as suas escolhas hoje, isso nunca deveria ter sido e já não é mais problema seu. O seu problema real é cuidar do futuro, com profunda gratidão ao passado.

Espaço da nossa Aldeia

Romper com a necessidade de aprovação da nossa família de origem é o passo definitivo para conseguirmos assumir a autoria da nossa própria história e proteger a infância dos nossos filhos.

Como foi para você o processo de delimitar fronteiras com a sua mãe ou com a sua família de origem após a chegada dos seus filhos? Você conseguiu construir uma relação de respeito às suas decisões ou ainda se pega tentando ser a “boa filha” em detrimento da sua intuição materna? Deixe o seu relato nos comentários. Vamos conversar sobre essas fronteiras necessárias na nossa aldeia!

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.