O mantra “criança não namora” e o crescimento dos filhos: a sutil arte de proteger a infância
Desenvolvimento 13 de junho de 2019 3 min de leitura

O mantra “criança não namora” e o crescimento dos filhos: a sutil arte de proteger a infância

Criança não namora! Eu sempre repeti essa frase em voz alta, e já faz bastante tempo. O meu foco principal sempre foi combater a postura daqueles adultos que insistem em fazer perguntas invasivas e inadequadas para os pequenos, como: “— E aí, fulaninho, quantas namoradinhas você já tem na escola?”. Essa abordagem, que normalmente é direcionada aos meninos, fere profundamente a sensibilidade infantil. Eu cansei de ver o constrangimento estampado no rosto deles diante dessa pressão social descabida.

Eu também usava esse posicionamento em casa, com os meus filhos, quando eles traziam alguma história de um colega da escola que dizia estar namorando. Dizer que “criança não namora” era um verdadeiro mantra no nosso lar. E ao longo dos anos, pude perceber o conforto e a profunda sensação de segurança que essa afirmação trouxe para eles em diversas situações.

No entanto, recentemente, tenho me confrontado com essa própria rigidez. É claro que os filhos crescem, e a vontade de conhecer intimamente outra pessoa passa a fazer parte natural do desenvolvimento. Mas mesmo em relação às filhas menores, percebi que aquela forma enfática de cortar o assunto, sem dar qualquer margem para o diálogo, precisava de uma nova lente.

O namoro sob a ótica dos pequenos

Decidi mudar a postura e passei a me interessar genuinamente pela compreensão que as crianças têm sobre o que é o namoro. E o resultado me surpreendeu. Percebi que existem momentos em que elas simplesmente se sentem encantadas por certas pessoas, e a única palavra que elas conhecem e possuem no vocabulário para traduzir esse sentimento é “namoro”.

Nessa fase, elas também imitam os pais — o que é absolutamente natural. Hoje, confesso que fico feliz quando os ouço dizendo que querem casar no futuro. No fundo, compreendo que esse desejo nasce porque eles reconhecem como bom, seguro e afetuoso o modelo de parceria e casamento que eles presenciam diariamente dentro da nossa própria casa.

Continuo defendendo convictamente que criança não namora. A diferença é que, agora, tenho sido muito menos enfática com as crianças e infinitamente mais dura com os adultos. Se os mais velhos não são capazes de compreender e respeitar a sacralidade e o tempo do universo da infância, eu os afasto sem hesitar.

A infância precisa ser rigorosamente preservada, e é papel fundamental dos pais, ocupando o seu lugar de adultos conscientes, garantir esse direito aos filhos. Oferecer uma infância protegida e vivida no seu próprio tempo talvez seja a única coisa verdadeiramente valiosa que podemos deixar como legado.

Espaço da nossa Aldeia

Aprender a flexibilizar os nossos dogmas educativos quando os filhos crescem é o que nos permite continuar sendo um porto seguro de diálogo e confiança para eles.

Você também já teve que recalcular a rota de algum “mantra” ou regra rígida na sua casa para conseguir acompanhar o amadurecimento e a visão de mundo dos seus filhos? Como você reage quando adultos sem noção tentam empurrar comportamentos namoradores ou erotizados para cima das crianças? Deixe a sua experiência nos comentários. Vamos continuar protegendo a integridade dos nossos pequenos juntas nesta aldeia!

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.