Nem vítima, nem guerreira: o desafio de abandonar a autopiedade e crescer na maternidade
Bem-estar 21 de fevereiro de 2020 4 min de leitura

Nem vítima, nem guerreira: o desafio de abandonar a autopiedade e crescer na maternidade

Olhando para a minha própria jornada com honestidade brutal, descobri que o meu maior obstáculo para crescer e exercitar a gratidão tem um nome bem específico: a autopiedade.

A pena de si mesma nasce daquele desejo infantil de querer que a vida seja mais fácil, menos exigente e que as nossas escolhas cotidianas possam ser feitas sem que precisemos perder absolutamente nada. No passado, o sentimento de coitadinha já me forneceu material de sobra para construir narrativas nada construtivas, além de me dar uma facilidade enorme para acolher e afagar outras mulheres com dores muito semelhantes às minhas. Assim, nós nos mantínhamos confortáveis, aninhadas em um sofrimento que parecia acolhedor e que, de certa forma, nos sustentava.

Para quem escolhe o lugar do sofrimento, a maternidade é um prato cheio — assim como o matrimônio. A privação de sono, a comida que esfria no prato, o pijama usado o dia inteiro, as horas gastas balançando o bebê na frente da janela, a dependência, as renúncias… É fácil enxergar tudo isso sob a ótica da injustiça, onde a necessidade do outro é sempre inviolável enquanto atender às nossas demandas mais básicas parece ter se tornado um evento de gala. Quanta pena podemos sentir de nós mesmas.

A armadilha da “guerreira” e a falsa glória

Do outro lado dessa mesma moeda, existe outra distorção perigosa: o martírio. É o lugar da “guerreira”, aquela mulher que aguenta tudo em silêncio porque acredita que esse é o seu papel no mundo; aquela que faz tudo melhor do que qualquer pessoa e se orgulha de dar conta de tudo sozinha.

A crença de que somos capazes de suportar o peso do mundo sem quebrar gera uma sensação de euforia passageira, um ânimo inflado que compromete a nossa lucidez. O destino final da guerreira, no entanto, é o mesmo: encontrar-se profundamente sozinha, em um isolamento exausto e sem nenhum reconhecimento à vista.

Nem a pena, nem a glória. Nenhuma dessas duas ilusões serve de ambição para a busca que faço hoje. Escolho aceitar as oportunidades reais que esta vida farta me oferece, abrindo mão do perfeccionismo idealizado, mas permitindo que ele me sirva de inspiração. Deixo para trás o excesso de materialismo e a cobrança milimétrica que só alimentam a nossa pequenez.

A dor do crescimento como escolha diária

A maturidade na parentalidade exige que a gente acredite que a dor do crescimento vale a pena. Significa decretar: nunca mais a autopiedade.

Permitir que o maternar me transforme de verdade é uma escolha diária que exige, necessariamente, abrir mão do conforto e da passividade da vítima. O amadurecimento não acontece na facilidade; ele acontece na nossa capacidade de sustentar as escolhas que fizemos e de olhar para os nossos filhos a partir da nossa força, não do nosso desamparo.

A transformação dói, mas liberta. Quem vem junto nessa caminhada?

Espaço da nossa Aldeia

Sair do papel de vítima ou de heroína exige que o adulto assuma a responsabilidade pela sua própria realidade, sem buscar culpados pela dureza da rotina.

Você já se pegou presa em uma dessas duas armadilhas: alimentando a pena de si mesma pelas renúncias da maternidade ou vestindo a armadura pesada da guerreira que não aceita ajuda? Como tem sido o exercício de abandonar esses papéis para simplesmente crescer com o que a vida real apresenta? Deixe a sua reflexão nos comentários e vamos conversar!

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.