Antes mesmo de os meus olhos abrirem de verdade, eu já estava de pé. Ao longo dos anos, desenvolvi uma habilidade quase mística de ver sem enxergar.
O meu dia não começou com um “bom dia, mamãe! Dormiu bem?”. Ele foi inaugurado por um sobressalto: um “prooooontooo! Já terminei!” vindo do banheiro ao lado, seguido imediatamente por um corpinho pressionando o meu, exigindo o café da manhã. A lista de demandas invisíveis já havia preenchido toda a primeira metade da minha manhã antes mesmo que eu pudesse registrar a minha própria existência.
Não havia mais ninguém ali para testemunhar ou admirar a minha capacidade de realizar tantas funções ao mesmo tempo sem sequer ter percebido o meu próprio corpo após uma noite cheia de interrupções. Esses são capítulos repetidos da minha vida há 14 anos.
O direito à raiva e a solidão do piloto automático
Enquanto cumpria a lista de tarefas e o dia clareava, percebi que estava esperando que mais alguém na casa acordasse. No fundo, eu queria encontrar um alvo para descontar a raiva latente que estava sentindo — a raiva de não ter sido eu a escolhida para desfrutar do privilégio de acordar lentamente, dar aquela espreguiçada demorada e tirar as remelas de uma noite verdadeiramente bem dormida.
Entendi que está tudo bem sentir essa raiva. Está tudo bem acolher a solidão de não ter, naquele minuto, cúmplices que tenham empatia com a minha situação. O vigor quase violento com que as crianças despertam para a vida me faz, muitas vezes, desejar o fim do dia imediatamente. E, quando elas finalmente adormecem, eu temo a chegada da noite. Temo o choro na madrugada, o despertar abrupto, as necessidades urgentemente inegociáveis.
A noite acontece no ritmo dela. Da cama, eu ouço o canto das cigarras, os morcegos que habitam o forro do telhado, os cachorros latindo na rua sem propósito aparente e, de repente, o som muda: já são os pássaros anunciando o novo dia. O ciclo recomeça.
Acolher o avesso do maternar
À raiva e à solidão, soma-se um certo desespero silencioso. Logo haverá o chamado no banheiro e o café precisará estar na mesa. Diante disso, eu me dou o direito de fazer cara feia. Afinal, não havia ninguém ali com a grandeza necessária para reconhecer a imensidão de tantos gestos invisíveis — talvez nem eu mesma estivesse conseguindo reconhecê-los naquele instante.
Maternar consciente não é sorrir enquanto a sua energia zera. É ter a coragem de acolher esse sentir cinzento que, vez ou outra, permeia a nossa jornada. É justamente a validação desse avesso que me limpa e me permite reconhecer, com profundo respeito, a grandeza e a humanidade de cada nova mãe que cruza e presenteia o meu caminhar.
Espaço da nossa Aldeia
A exaustão materna nos obriga a operar no modo de sobrevivência, e fingir que estamos plácidas só aumenta a distância de nós mesmas.
Como são as manhãs na sua casa? Você também vive esse contraste entre o despertar enérgico dos filhos e o cansaço do seu próprio corpo? Você se permite sentir e expressar a raiva da privação de sono ou ainda se pune por não começar o dia sorrindo? Deixe o seu desabafo nos comentários. A nossa aldeia serve para acolher a verdade inteira, não só a parte bonita.


