Manhãs caóticas: a realidade da mãe que não tem o privilégio de acordar lentamente
Bem-estar 13 de fevereiro de 2020 3 min de leitura

Manhãs caóticas: a realidade da mãe que não tem o privilégio de acordar lentamente

Antes mesmo de os meus olhos abrirem de verdade, eu já estava de pé. Ao longo dos anos, desenvolvi uma habilidade quase mística de ver sem enxergar.

O meu dia não começou com um “bom dia, mamãe! Dormiu bem?”. Ele foi inaugurado por um sobressalto: um “prooooontooo! Já terminei!” vindo do banheiro ao lado, seguido imediatamente por um corpinho pressionando o meu, exigindo o café da manhã. A lista de demandas invisíveis já havia preenchido toda a primeira metade da minha manhã antes mesmo que eu pudesse registrar a minha própria existência.

Não havia mais ninguém ali para testemunhar ou admirar a minha capacidade de realizar tantas funções ao mesmo tempo sem sequer ter percebido o meu próprio corpo após uma noite cheia de interrupções. Esses são capítulos repetidos da minha vida há 14 anos.

O direito à raiva e a solidão do piloto automático

Enquanto cumpria a lista de tarefas e o dia clareava, percebi que estava esperando que mais alguém na casa acordasse. No fundo, eu queria encontrar um alvo para descontar a raiva latente que estava sentindo — a raiva de não ter sido eu a escolhida para desfrutar do privilégio de acordar lentamente, dar aquela espreguiçada demorada e tirar as remelas de uma noite verdadeiramente bem dormida.

Entendi que está tudo bem sentir essa raiva. Está tudo bem acolher a solidão de não ter, naquele minuto, cúmplices que tenham empatia com a minha situação. O vigor quase violento com que as crianças despertam para a vida me faz, muitas vezes, desejar o fim do dia imediatamente. E, quando elas finalmente adormecem, eu temo a chegada da noite. Temo o choro na madrugada, o despertar abrupto, as necessidades urgentemente inegociáveis.

A noite acontece no ritmo dela. Da cama, eu ouço o canto das cigarras, os morcegos que habitam o forro do telhado, os cachorros latindo na rua sem propósito aparente e, de repente, o som muda: já são os pássaros anunciando o novo dia. O ciclo recomeça.

Acolher o avesso do maternar

À raiva e à solidão, soma-se um certo desespero silencioso. Logo haverá o chamado no banheiro e o café precisará estar na mesa. Diante disso, eu me dou o direito de fazer cara feia. Afinal, não havia ninguém ali com a grandeza necessária para reconhecer a imensidão de tantos gestos invisíveis — talvez nem eu mesma estivesse conseguindo reconhecê-los naquele instante.

Maternar consciente não é sorrir enquanto a sua energia zera. É ter a coragem de acolher esse sentir cinzento que, vez ou outra, permeia a nossa jornada. É justamente a validação desse avesso que me limpa e me permite reconhecer, com profundo respeito, a grandeza e a humanidade de cada nova mãe que cruza e presenteia o meu caminhar.

Espaço da nossa Aldeia

A exaustão materna nos obriga a operar no modo de sobrevivência, e fingir que estamos plácidas só aumenta a distância de nós mesmas.

Como são as manhãs na sua casa? Você também vive esse contraste entre o despertar enérgico dos filhos e o cansaço do seu próprio corpo? Você se permite sentir e expressar a raiva da privação de sono ou ainda se pune por não começar o dia sorrindo? Deixe o seu desabafo nos comentários. A nossa aldeia serve para acolher a verdade inteira, não só a parte bonita.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.