A tristeza oculta na maternidade: validando as emoções e o luto do puerpério
Bem-estar 17 de fevereiro de 2021 4 min de leitura

A tristeza oculta na maternidade: validando as emoções e o luto do puerpério

Ninguém espera encontrar uma mãe triste com um bebê perfeitamente saudável no colo. Da mesma forma, culturalmente, assume-se que o pai também não deveria experimentar esse sentimento. Mas a verdade que se esconde entre as paredes do quarto é outra: existe, sim, tristeza entre as trocas de fraldas, os arrotos, os embalos infindáveis e as horas que se arrastam no relógio sem trazer nada de visualmente “novo” para o dia. É o cenário onde os lábios sorriem para o filho enquanto os olhos marejam de exaustão e solidão.

As recém-mães não estão tristes por falta de amor; pelo contrário, muitas vezes amam mais do que jamais imaginaram ser capaz. Também não é pelo peso de descobrir que agora são o centro da vida de outra pessoa. Não é a nova realidade em si que traz o aperto no peito.

Não sei se há uma razão lógica para essa tristeza, e talvez nós sequer precisemos justificá-la — na verdade, não deveríamos ter que fazer isso. Mas ela está lá. Ela transparece nas fotos filtradas e habita as lembranças do início. A tristeza é uma visita imponente e quase obrigatória no puerpério. Assim como o êxtase e o estado de graça aparecem, a melancolia também se faz presente, por mais que tentemos disfarçá-la. Não há erro algum na sua inesperada presença.

A diferença entre acolher a visita e hospedar a desesperança

A tristeza do pós-parto pode e deve ser acolhida e cuidada, mas precisa ser compreendida como uma visita passageira, e não como uma convidada de honra que se muda para a nossa casa.

Se essa visita começa a se delongar além do esperado e passa a convidar a desesperança para participar da estadia, é hora de desconfiar de sua natural intenção. Com o apoio certo, precisamos convidá-la a encontrar o seu devido lugar.

Antes de simplesmente tentar enxotá-la ou ignorar que ela existe, podemos fazer um exercício de coragem: perguntar se ela está se demorando porque traz consigo alguma mensagem importante que precisamos ouvir. Ao escutá-la de frente, permitimos que ela cumpra seu papel e, finalmente, possa voltar a partir.

O luto necessário da vida anterior

Na grande maioria das vezes, a mensagem que essa tristeza carrega é sobre o luto. Por mais que aquele bebê nos braços tenha sido planejado, desejado e esperado, o nascimento de um filho exige que esses pais se despeçam, abruptamente, de uma vida anterior. Uma vida que era segura, controlada, bem-sucedida e que os garantiu chegar com estrutura até aqui.

Essas renúncias diárias do cotidiano são perdas reais. Elas precisam ser enlutadas e demandam tempo para serem digeridas, até que se transformem apenas em boas narrativas de um passado cheio de memórias queridas, e não em um fantasma que assombra o presente.

Dar espaço para a tristeza inicial não diminui o amor pelo filho; apenas humaniza quem o carrega no colo.

Espaço da nossa Aldeia

O puerpério é feito de dualidades: é perfeitamente possível amar o bebê com todas as forças e, ao mesmo tempo, sentir saudades da liberdade e da rotina da vida que ficou para trás.

Você já sentiu essa “visita imponente” da tristeza no seu pós-parto? Conseguiu identificar qual era a mensagem ou a despedida que ela estava tentando te apontar? Compartilhe seu relato nos comentários para que outras mães saibam que não estão sozinhas nesse sentimento.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.