Esperar. Esse é o verbo tão próprio que qualifica, de forma profunda e verdadeira, o nosso estado emocional durante a gestação. À primeira vista, pode parecer uma não-ação, mas quem vive o processo sabe: a espera é um movimento invisível, revolucionário e avassalador na alma de quem a executa.
Geralmente, definimos o ato de esperar pela falta — uma não-tomada de decisão, uma passividade. Mas quanto movimento interno acontece quando nos colocamos deliberadamente em espera? Quantas qualidades psíquicas e emocionais podem ser exploradas nessa pausa?
Permitir-se esse tempo de aguardar o que não podemos apressar, criar de forma mecânica ou controlar é uma das maiores virtudes da maternidade consciente.
A revelação espiritual do preenchido vazio
Existe uma verdadeira revelação espiritual nesse verbo. Esperar exige a aceitação de um lugar onde o ego adulto nada pode fazer a não ser nutrir o que chamamos de “preenchido vazio”.
Em uma sociedade viciada em ansiedades, metas, cronogramas e planos milimetricamente traçados, permitir-se o movimento de aguardar o que já está feito acontecer e revelar-se é uma conversão para a alma. É mudar a engrenagem para uma direção quase impossível de acessar no automatismo do nosso dia a dia.
Essa mudança de ritmo é fundamental para permear a qualidade da relação que construiremos com os nossos filhos e, antes de tudo, com nós mesmas.
Assim como na natureza, a vida exige ciclos que não aceitam atalhos. Há o tempo de arar a terra e de nutri-la, bem como há o tempo de apenas esperar a transformação da semente. Debaixo da terra, invisível aos nossos olhos, aquela semente vive processos intensos de fissura, quebra, transformação e verticalização em busca da luz. Na gestação, nós somos essa terra e essa semente ao mesmo tempo.
O portal da transformação
A gestação não é uma contagem regressiva para o nascimento de um bebê; é o tempo necessário para o nascimento de uma mãe.
Enquanto esperamos a chegada do filho, esse tempo de silêncio e maturação nos transforma por completo. Ele nos obriga a desacelerar e nos permite adentrar portais que, até então, estavam intactos na nossa existência consciente. Romper a barreira do controle é o primeiro passo para acolher a imprevisibilidade da vida com um filho nos braços.
Espaço da nossa Aldeia
Como tem sido para você lidar com o tempo de espera da gestação ou das fases do seu filho? Você consegue enxergar potência nessa pausa ou a ansiedade pelo que vem a seguir costuma tomar conta?
Compartilhe a sua reflexão aqui nos comentários. Vamos conversar sobre a beleza de respeitar o tempo invisível das nossas transformações.
Esse texto traz um respiro poético belíssimo para o feed do blog, contrapondo os textos anteriores que eram mais focados no caos prático do puerpério.


