O desejo de fugir e o reencontro: quando o abismo do puerpério nos afasta de nós mesmas
Bem-estar 1 de março de 2021 3 min de leitura

O desejo de fugir e o reencontro: quando o abismo do puerpério nos afasta de nós mesmas

Eu me arrependi. Foi exatamente esse o sentimento que me invadiu quando reconheci, no silêncio da casa, que eu simplesmente não apreciava aquilo que a sociedade insiste em dizer que deveria ser apreciado. No meio do caos, achei sinceramente que devia desistir — embora soubesse, no fundo, que já era tarde demais para voltar atrás.

Foi de forma totalmente ingênua que aceitei a maternidade. Mesmo que tivessem me contado detalhadamente os desafios, nenhuma narrativa estaria minimamente próxima dessa realidade tão distinta, crua e avassaladora.

Entre o desespero de não dar conta e a frustração da rotina, a minha mente me sabotava: eu só conseguia reconhecer a péssima e horrível mãe que acreditava ter nascido de mim.

O abismo invisível da produtividade armada

A sensação era definitiva: “Eu não sou boa nisso, isso não é para mim”. O meu único desejo oculto era fugir. Não queria estar ali dando mais um banho, trocando mais uma fralda, vendo o tempo escorrer pelos dedos enquanto contabilizava mentalmente tudo o que eu tinha deixado de fazer no mundo lá fora — tudo aquilo que seria considerado produtivo e socialmente reconhecido.

Nesse abismo de silêncio e de névoa, eu já não me reconhecia. Anseiava pelo dia ensolarado que me prometeram nas fotos de redes sociais, nos filmes e nas histórias de “sentir-se completa”. Naquele momento, tudo parecia apenas o conto do vigário.

O resgate da mãe suficiente

Percebi que eu não odiava o meu bebê; eu apenas tinha me perdido de mim mesma. Tomada pela grandiosa e esmagadora responsabilidade que aceitei, deixei a minha individualidade totalmente de lado. E essa parte que faltava era justamente a parte que se sensibiliza, que consegue ver através dos olhos do amor e do altruísmo.

Decidi, então, me resgatar. Me trazer junto para a cena. Me acolher com as minhas sombras, exatamente da mesma forma como acolho o meu bebê, que está totalmente entregue e confiante em meus braços.

E olhando para ele, me perguntei: por que ele não duvida? O bebê parece ter uma confiança inabalável no seu próprio poder de atração. Como ele sabe, na sua sabedoria instintiva, que eu não sairei correndo dali mesmo depois de passar horas a fio no embalo do choro?

Qual é a lógica de ficar? Minhas costas doem, e ando quilômetros em dois passos dentro do quarto, sem chegar a qualquer outro lugar que não seja em mim mesma. Mas é nessa caminhada em círculos que alcanço a certeza definitiva: mesmo não estando perfeita como a cultura dita que eu deveria estar, eu sou suficiente e sou a pessoa certa para estar aqui, neste único e exato lugar e tudo isso é para que eu mesma possa me encontrar.

Espaço da nossa Aldeia

O desejo de fugir da exaustão não te faz uma mãe ruim; te faz um ser humano no limite do seu cansaço. Você já viveu esse momento de olhar para a rotina e desejar, mesmo que por um instante, voltar no tempo? Como foi se reencontrar depois da névoa?

Compartilhe a sua história aqui nos comentários. Vamos continuar transformando as nossas dores em uma rede de liberdade e acolhimento mútuo.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.