Durante quanto tempo ao longo da sua vida você imaginou como seria o seu bebê? Com quem ele se pareceria? Qual seria a sua parte mais bela e potente que deveria ser transmitida através dos seus genes? Qual seria aquele traço físico ou de personalidade do pai que você tanto admira e que gostaria de reconhecer toda vez que olhasse para aquele rostinho?
Certamente, nas telas da imaginação, você desenhou um bebê de comercial: gordinho, rechonchudo, cheio de bochechas, dobrinhas perfeitas e um temperamento previsível.
No entanto, o que nasce depois de tanta espera e expectativa é o bebê real. E, muitas vezes, ele não se parece em nada com aquele que foi idealizado na sua mente. Por ser tão sutil ou radicalmente diferente da imagem construída ao longo dos meses, é perfeitamente possível — e doloroso — que, nos primeiros dias, você sinta dificuldade de enxergar beleza nele.
O cenário ganha contornos ainda mais complexos quando nos deparamos com a genética: e se o gene que passou para a criança foi justamente aquele traço físico ou comportamental que você menos aprecia em si mesma ou no outro?
A desconstrução da fantasia: um processo de luto
Se você já sentiu esse estranhamento, não se culpe e não se desespere: este é um processo legítimo de luto. É a perda necessária de um bebê idealizado que, pouco a pouco, abrirá espaço e dará lugar para a chegada e aceitação deste bebê real — a quem você vai amar profundamente, independentemente da aparência ou das projeções.
Leva tempo para se acostumar com as características reais de uma pessoa que, apesar de ter saído de dentro de você, ainda é uma completa desconhecida. É preciso tempo de chão, de colo e de convivência para decifrar o jeitinho dela, o ritmo do choro, o formato do olhar e a singularidade do seu corpo. A paixão materna nem sempre nasce no momento do parto; muitas vezes, ela é uma construção diária.
Um conselho preventivo para a gestação
Como estratégia de preservação da saúde mental na transição para a parentalidade, um conselho preventivo fundamental é: não alimente excessivamente a idealização de como será o seu filho.
Durante a gestação, faça o exercício consciente de deixar essas perguntas em branco. Permita-se não saber. Deixe para responder a cada uma delas com o tempo, à medida que você for convivendo, se apaixonando e conhecendo a fundo a realidade do seu pequeno. Quanto menor for o tamanho da estátua idealizada, menor será o tombo da realidade.
O limite do sofrimento: quando buscar ajuda?
Precisamos normalizar o tempo de adaptação, mas também precisamos demarcar os limites clínicos do sofrimento. Se por acaso você perceber que as características físicas, o comportamento ou a simples presença do seu bebê geram em você um sentimento persistente de rejeição, aversão ou repulsa, não sofra em silêncio e não se esconda atrás da vergonha.
Nesses momentos, o cansaço e os lutos internos podem ter ultrapassado a barreira do adaptativo. Procure ajuda profissional especializada. Um acompanhamento psicoterapêutico perinatal oferecerá o espaço seguro e livre de julgamentos que você precisa para elaborar essas projeções, reorganizar os seus sentimentos e construir uma ponte de afeto real, segura e saudável com o seu filho.


