Paciência na maternidade: abrindo mão da raiva e cultivando a si mesma
Autoconhecimento 27 de abril de 2021 3 min de leitura

Paciência na maternidade: abrindo mão da raiva e cultivando a si mesma

“Eu queria tanto ter mais paciência com os meus filhos!” Esta é uma das frases que mais ouço no consultório de psicologia e, sendo muito honesta, é um desejo que eu mesma frequentemente manifesto na minha rotina.

No imaginário social, a paciência materna é frequentemente pintada como um bem precioso, um dom quase divino ou uma virtude mágica que algumas mulheres têm e outras não. Mas a verdade clínica é que ela não é nada disso.

Há uma definição budista sobre esse tema que li certa vez e que considero perfeita para a nossa jornada: “Ter paciência é abrir mão da raiva”.

Sob essa ótica, a paciência deixa de ser um estado passivo de santidade e se transforma em uma decisão ativa e diária que tomamos sobre o que fazer com a emoção que estamos sentindo. Aquela velha ideia de que podemos — e devemos — controlar tudo o que sentimos é antiga e irreal. Nós nunca teremos controle absoluto sobre a emergência das nossas emoções.

A nossa verdadeira liberdade, o nosso processo de maturidade e evolução, consiste unicamente em decidir o que fazer com as emoções que emergem. E, convenhamos, a maternidade é um convite diário e frequente para a visita da raiva.

A ilusão do autocontrole e a fogueira da culpa

Toda vez que uma mãe percebe a presença da raiva diante de um comportamento do filho, ela imediatamente se sente mal. Instala-se um ciclo doloroso: a raiva surge, a culpa vem logo em seguida e a mulher passa a se cobrar um autocontrole que é biologicamente impossível no auge do estresse. O resultado disso? Só aumentamos a lenha e o fogo nessa fogueira interna.

Antes de conseguirmos ter paciência com os nossos filhos, precisamos urgentemente aprender a ter paciência com a gente mesma.

Nós também estamos aprendendo a ser mães a cada dia. Precisamos compreender que são exatamente nessas situações-limite em que a raiva transborda que temos a chance de ouro de escolher o que fazer com essa potente energia. A raiva não é sua inimiga; ela é apenas um sinalizador de que algum limite seu foi invadido.

A raiva como moeda de troca

Em algumas ocasiões, você conseguirá fazer essa transição de forma natural. Com o passar do tempo e com a experimentação diária, você começará a perceber que a raiva pode ser, curiosamente, uma excelente moeda de troca. Afinal de contas, nós precisamos justamente da presença dela para conseguir exercitar e adquirir a paciência, não é? A paciência é a raiva metabolizada e transformada em limite consciente.

Que tal fazermos uma experiência prática a partir de hoje?

Quando a raiva inevitavelmente surgir aí dentro daqui a alguns minutos ou nas próximas horas, respire fundo e lembre-se deste comando: “Ter paciência é abrir mão da raiva. Eu vou ficar um instante comigo mesma, me dando o tempo que preciso para essa troca interna acontecer”. Afaste-se por dois minutos, mude o foco, valide o seu cansaço e só então retorne para a cena.

O que você acha? Está comigo nesse desafio de acolher a nossa humanidade para, finalmente, conseguir exercer uma parentalidade mais consciente e leve?

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.