No universo dos recém-nascidos, existem fundamentalmente duas grandes razões que disparam o choro: a expressão de uma necessidade biológica/afetiva imediata e a evacuação do estresse acumulado no organismo.
Como pais conscientes, o nosso objetivo principal deve ser o de limitar ao máximo as situações geradoras de estresse. Para fazer isso de forma eficaz, precisamos abandonar aquele impulso automático de apenas tentar conter, abafar ou evitar o choro a qualquer custo, focando os nossos esforços em compreender o que os sinais corporais do bebê estão tentando nos comunicar.
A melhor forma de atuar na prevenção do estresse infantil é conhecendo — e limitando — as suas cinco principais fontes nos primeiros meses de vida:
- 1. Traumas pré-natais e do nascimente – Intervenções médicas como uso de medicações indutoras, fórceps, trabalhos de parto excessivamente prolongados, oxigenação insuficiente no nascimento, frio ao nascer, excesso de luminosidade na sala de parto, manipulações bruscas da equipe e a separação precoce da mãe são situações estressantes. Na maioria das vezes elas se fazem inevitáveis, mas nós precisamos ter consciência do impacto emocional que causam no bebê e suspeitar que elas sejam a raiz oculta de crises de choro e melancolia posteriores.
- 2. Necessidades afetivas não satisfeitas – O recém-nascido tem necessidade vital de ser tocado, carregado, alimentado e ninado. A neurobiologia do apego nos mostra que quanto mais contato corporal e pele a pele o bebê experimenta no início da vida, menos necessidade de chorar ele apresenta. Por outro lado, quanto mais privado desse contato físico e dos estímulos essenciais do corpo materno, mais estressado o sistema nervoso dele fica.
- 3. Excesso de estimulação sensorial – Os dias e semanas que sucedem o nascimento deveriam ser blindados, contendo o mínimo de estímulos externos possível para o bebê e a maior quantidade de repouso e isolamento saudável para a mãe. Ambos passaram por um portal e precisam de tempo de recuperação biológica. Esse período deve ser aproveitado exclusivamente para o estabelecimento do vínculo íntimo. O excesso de visitas, barulhos, passeios e informações visuais tem um impacto devastador na fisiologia sensível do recém-nascido.
- 4. Frustração de aprendizagem – A intenção interna de adquirir uma nova competência motora ou cognitiva precede sempre a conquista física real. Por isso, muitas vezes o choro do bebê expressa apenas a frustração pura diante das tentativas ainda infrutíferas de executar novas habilidades — como tentar rolar, alcançar um objeto ou firmar o pescoço. É a frustração do crescimento.
- 5. Dor física e emocional – O choro provocado por dor física tem uma sonoridade aguda e diferente, um tempo mais prolongado e costuma vir acompanhado de outros sinais de desconforto corporal. No entanto, vale o alerta: o choro de um machucado ou de uma cólica pode durar muito mais tempo do que a dor física em si, porque a experiência causa também dor emocional (medo, desamparo e aborrecimento). É absolutamente normal que a criança precise de colo e amparo mesmo muito tempo depois que o desconforto físico já tenha sido totalmente amenizado.
Acolher o choro decorrente dessas fontes não significa que falhamos em proteger o bebê, mas sim que estamos oferecendo o nosso próprio corpo como amortecedor para que ele processe as marcas da sua chegada ao mundo.
Espaço da nossa Aldeia
Mapear as fontes de estresse nos ajuda a tirar o choro do lugar de “inimigo” e passar a olhá-lo como um sintoma de que o ambiente ou o histórico do bebê precisam de mais contorno e colo.
Olhando para essas cinco fontes, qual delas você percebe que mais reverbera ou ativou os episódios de choro na rotina do seu bebê? O histórico do parto ou o excesso de estímulos nas visitas de parentes já chegou a disparar crises por aí?
Compartilhe a sua reflexão nos comentários. Vamos continuar transformando as nossas dores em uma rede de liberdade e acolhimento mútuo.


