O marido viajou a trabalho, os filhos mais velhos foram acampar e eu me vi sozinha em casa com as pequenas. Para qualquer pessoa, dar conta de duas crianças sem apoio pareceria muito. No entanto, na nossa realidade, três filhos a menos trouxe uma perspectiva completamente nova, um outro ritmo. O dia passou devagar, desacelerado, e me deu a oportunidade preciosa de prestar atenção em algumas dinâmicas que já estavam acomodadas na nossa rotina.
A Morena começou a chupar o dedo quando tinha dois anos e meio — exatamente quando a Cora estava com seis meses. Na época, achei que seria uma fase passageira, mas não passou. Hoje, ela está com quatro anos e meio. E mesmo que eu tente me convencer de que estou confortável com a situação, a verdade é que me incomodava vê-la passando tanto tempo com o dedo na boca. Eu conseguia respeitar externamente, mas o ruído interno permanecia.
Olhando para ela hoje, com o silêncio que a casa vazia me proporcionou, comecei a conectar as peças do cenário geral. Consegui, finalmente, entender o sentimento dela.
Nomeando a verdade oculta
Depois de um tombo que ela levou enquanto brincava, o choro veio. Eu a abracei forte, segurei delicadamente a mãozinha dela e impedi que o dedo fosse direto para a boca. Pedi que ela me desse a chance de acalmá-la, de ouvi-la chorar e de poder acolher o seu sentimento por inteiro. Ela ficou brava, resistiu, mas eu insisti no afeto e comecei a verbalizar o que intuía: supus em voz alta que ela devia ter sentido muito a minha falta no momento em que começou a chupar o dedo, dois anos atrás. Disse a ela que aquele dedinho tinha sido uma boa companhia para que ela não se sentisse tão sozinha.
Naquele instante, a Morena desabou. Ela começou a chorar um choro completamente diferente, profundo, e passou a repetir as minhas frases, dando voz à própria dor: “— Eu sentia falta dos teus colos!” “— Eu queria o papai!” “— Eu tava sozinha!”
Tive a nítida impressão de conseguir tocá-la na alma, de acolhê-la onde ela realmente precisava. Mas ouvir um filho dizer a sua verdade nua e crua não é uma tarefa fácil.
A ausência que dói na mãe
Como mães, fomos ensinadas a odiar as nossas falhas. Não gostamos de errar e temos ainda mais dificuldade de falar publicamente sobre os lugares onde faltamos. Procuramos desesperadamente formas de nos livrar da culpa, porque a entendemos como um fardo pesado demais para carregar. O problema é que as nossas faltas deixam marcas nas crianças — principalmente se não forem ditas, se não forem assumidas por nós.
Foi doloroso reconhecer que o meu incômodo com o dedo na boca da Morena era, na verdade, o espelho da minha própria ausência. Eu enxergava ali o momento em que precisei me dividir. Eu queria e precisava cuidar da Cora, e fiz o melhor que pude com as ferramentas que tinha na época, mesmo sabendo hoje que aquilo não foi o suficiente para a Morena. A realidade factual não pode ser mudada.
Hoje, a Morena continua pedindo colo de forma insistente, como se aquela fase de bebê nunca tivesse terminado. E cada vez que ela pede, entendo que o universo está me dando uma nova chance de atender o chamado. Pode ser mais desafiador agora, com ela maior, mas a beleza da parentalidade consciente está aqui: sempre temos a chance de transformar a nossa culpa em mudança real enquanto as crianças ainda pedem por nós.
Espaço da nossa Aldeia
Decifrar os hábitos e comportamentos difíceis dos nossos filhos exige a coragem de olhar para as nossas próprias ausências sem nos destruir pela culpa, mas usando-as como mapas para a reparação.
Você já parou para observar se algum comportamento repetitivo ou desafiador do seu filho (chupar o dedo, roer unhas, birras intensas) não é, na verdade, a voz de uma necessidade antiga que ficou sem resposta no passado? Como tem sido para você a coragem de ouvir as verdades dolorosas dos seus filhos e transformar a culpa em presença e colo? Compartilhe a sua caminhada nos comentários. Vamos aprender a reparar os nossos vínculos juntas!


