Entre uma mamada, um arroto e uma troca de fraldas que se estenderam impiedosamente noite adentro, você já foi tomada pela certeza absoluta de que a sua vida anterior tinha lhe sido arrancada?
Em algum momento de solidão na madrugada, você já sentiu o peso do arrependimento e desejou, do fundo da alma, que ninguém mais dependesse de você?
Se a resposta for sim, saiba que você não está sozinha e, acima de tudo, você não é um monstro. É perfeitamente humano desejar, mesmo que por alguns instantes, voltar no tempo e se apropriar de novo de tudo aquilo que você percebeu que perdeu: o controle do seu próprio tempo, o silêncio restaurador, o direito de ir e vir e um corpo sem marcas, sem dores e sem serventia exclusiva para outro ser.
No entanto, a maternidade é feita de ciclos rápidos e ambivalentes. Sob a luz do luar mais denso ou aos primeiros raios do sol da manhã, as esperanças misteriosamente se renovam.
Renasce a certeza sutil de que as noites dormidas e o tempo de respiro individual voltarão a existir em um futuro que, embora ainda pareça sem contorno ou definição exata, está logo ali na frente.
Contudo, há um preço nessa travessia: o seu corpo nunca mais será o mesmo. Ele carregará para sempre, na pele e na alma, as marcas e a memória indelével de ter sido a origem de outro corpo, o portal para uma nova vida. A sua existência inteira foi rearranjada. É um processo de metamorfose. Ou, como podemos acolher terapeuticamente, uma **met-AMOR-fose**: o amor que te obriga a mudar de forma.
O amor que muda a forma de existir
Maternar é deixar de ser quem você era para tornar a ser alguém completamente diferente — nunca mais como antes.
Nesse caminho, você é levada para longe do seu antigo porto seguro. Viagem sem garantias, sem manual de segurança e povoada por medos que até então eram totalmente desconhecidos para você.
Ainda assim, mesmo perdida na névoa, você consegue encontrar entre a bruma a luz que te conduz, te orienta e te mantém de pé. Pouco a pouco, você se descobre caminhando e admirando uma paisagem desconhecida, mas que se revela cheia de cores novas, perfumes intensos e formas ricas e belas.
O seu maior impulso para seguir adiante é, finalmente, parar de lutar contra a correnteza e aceitar a transformação que te encontra, mesmo que o seu primeiro instinto seja o de tentar fugir, recuar ou parar o tempo.
Acolhendo a sua nova versão
A transformação exige o luto da antiga forma. Por isso, deixo um convite para a reflexão:
- Você consegue reconhecer e validar a sua própria transformação?
- O que verdadeiramente palpita no seu coração enquanto você assiste à sua antiga versão desaparecer?
Me conta aqui nos comentários. Conta para mim e para tantas outras mulheres da nossa aldeia que precisam ouvir e acreditar que essa angústia profunda da transformação não é um erro de percurso: ela é a definição exata da sua metamorfose.


