Durante anos, carreguei a convicção de que precisava sair de casa, romper fronteiras e ganhar o mundo para conseguir me encontrar. Esse movimento foi útil no final da minha adolescência e fez todo o sentido naquela etapa. No entanto, quando a maternidade bateu à porta, essa mesma crença se transformou em um peso avassalador.
Como eu poderia deixar sob os cuidados de terceiros aquele pequeno ser que dependia tão intimamente de mim?
O conflito interno era diário: quanto mais o meu filho solicitava a minha presença, mais raiva eu experimentava. Esse sentimento nascia porque eu não me dava a permissão de largar tudo e fugir em direção àquela antiga projeção de quem eu achava que deveria ser. Julgava o mundo injusto por não compreender o meu cansaço e me sentia pronta para uma revolução. No fundo, desejava secretamente ser compensada por cada gota de investimento e energia dedicada à criação.
A fantasia do colo que cura tudo
Enquanto eu me esvaía na rotina, o único alento que encontrava era a ideia abstrata de fugir para cuidar de mim, buscando um colo acolhedor que eu mesma nunca tive na infância. Culpava o entorno e as circunstâncias por não adivinharem essa minha necessidade que eu considerava a mais fundamental de todas.
Sustentar essa dinâmica baseada na fantasia da fuga tornou a nossa vida familiar insustentável. O ambiente adoeceu e eu me vi diante de uma encruzilhada, tendo que fazer escolhas reais.
Foi justamente diante do risco da perda que consegui acordar para a realidade do maternar. Esse chamado me permitiu interromper a sensação de estar sendo sugada pela relação com os meus filhos. Cuidar de mim mesma finalmente mudou de lugar: deixou de ser uma estratégia de fuga e passou a ser reconhecida como um requisito imprescindível para a qualidade do vínculo que eu mantinha com eles.
A beleza dos dias suficientes
A partir dessa virada de chave, a vida familiar ganhou um novo significado. Abandonar o ideal do autossacrifício para, em vez disso, buscar nutrição emocional através das interações reais com os filhos e com o parceiro transformou o cotidiano. Foi assim que redescobri a satisfação nas coisas simples: o prazer das tardes ensolaradas, o frescor de uma brisa suave, um piquenique despretensioso no gramado. Aprendi a valorizar os dias “suficientes” — aqueles que não são perfeitos, mas que fazem a existência valer a pena.
Olhar de frente para as demandas reais da maternidade, sem o filtro das idealizações ou dos antigos desejos de evasão, é o passo inicial que libera o caminho para a verdadeira satisfação na relação com os filhos. O resto são as escolhas e os incrementos que decidimos trazer para a nossa história ao longo da jornada.
Espaço da nossa Aldeia
Romper com a engrenagem do autossacrifício exige que o adulto pare de culpar o mundo e assuma a responsabilidade pelas suas próprias pausas e limites.
Você já se pegou vivendo a maternidade no piloto automático, alimentando o desejo secreto de fugir para bem longe de todas as demandas? Como foi o processo de compreender que cuidar de si não é o oposto de maternar, mas sim o combustível para tornar essa jornada viável?
Compartilhe a sua reflexão nos comentários. Vamos continuar transformando as nossas dores em uma rede de liberdade e acolhimento mútuo.


