Maternidade: o luto necessário pela vida que ficou para trás
Bem-estar 12 de abril de 2021 3 min de leitura

Maternidade: o luto necessário pela vida que ficou para trás

Quando um filho nasce, a sociedade espera que a mulher transborde apenas alegria, gratidão e plenitude. No entanto, nos bastidores da alma materna, um sentimento muito diferente e silencioso costuma se instalar: o luto.

A vida de antes deixa abruptamente de existir. E, no início, nós simplesmente não sabemos como será a vida daqui para a frente. O futuro com um bebê nos braços parece distante, desconhecido, sem contornos definidos — como se estivesse encoberto por uma névoa espessa que confunde os nossos sentidos e faz parecer, nos dias mais difíceis, que o sol se foi para sempre.

Nesse cenário de desestruturação, sentimentos de angústia, medo e profunda tristeza tornam-se companhias íntimas. Surge também uma ansiedade latente para que o tempo passe rápido, alimentada pela doce ilusão de que, ali na frente, será possível recuperar a vida anterior exatamente de onde ela parou.

Desapegar da margem antiga para encontrar terra firme

É esperado e perfeitamente natural que, com o passar do tempo, você consiga encontrar um novo equilíbrio entre atender às demandas urgentes da sua criança e resgatar as suas próprias necessidades. Mas essa reconstrução só começa de verdade quando passamos pelo processo de aceitação.

Aceitar que a vida nunca mais será como antes e desapegar da forma, do controle e da rotina que a sua existência tinha no passado é o que te ajuda no processo de encontrar a sua nova terra firme depois dos filhos. É assim que você descobre o seu novo território, as suas novas possibilidades e a sua nova realidade.

Imagine que a maternidade te coloca, obrigatoriamente, em um movimento de partida. É como se você embarcasse em um navio para navegar por águas misteriosas, sem sequer saber se está cruzando um rio ou um oceano profundo.

A travessia que nos transforma

Ao descolar da margem segura onde você passou toda a sua vida, a aventura inicia. E ela só termina quando você finalmente alcança a outra borda.

Nessa viagem, voltar para trás é absolutamente impossível. O caminho de retorno foi apagado. Por isso, você precisará de coragem para permanecer em movimento, ancorada na confiança de que tudo o que você está construindo e adquirindo agora — como novas habilidades, experiências viscerais e recursos internos — serão a base da sua resiliência depois que a tempestade passar.

Nessas novas terras que te esperam do outro lado, você não apenas sobreviverá, mas florescerá graças às ferramentas emocionais que desenvolveu durante a viagem. Você habitará uma nova vida.

O espaço da nossa aldeia

Nenhum processo de luto deveria ser vivenciado no isolamento. Olhar para a perda da própria liberdade e da antiga identidade faz parte do amadurecimento e da saúde mental perinatal.

Queremos ouvir a sua história para continuar construindo a nossa rede de apoio aqui no **ParentalLab**: Como foi para você vivenciar essa transformação? Você percebe que se tornou uma outra pessoa depois da chegada dos seus filhos?

Deixe o seu relato aqui nos comentários. Ao compartilhar a sua jornada, você ajuda a acender uma luz na névoa de outra mãe, mostrando a ela que nenhuma de nós precisa cruzar esse oceano sozinha.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.