Maternidade real: a solidão, os paradoxos da adaptação e a nossa transformação interna
Bem-estar 15 de julho de 2020 3 min de leitura

Maternidade real: a solidão, os paradoxos da adaptação e a nossa transformação interna

Depois que um bebê nasce, pequenos detalhes do cotidiano aos quais antes não dávamos o menor valor — como o ato simples de dirigir o carro ou marcar um compromisso sem depender de absolutamente ninguém — transformam-se, do dia para a noite, em verdadeiros artigos de luxo.

Ninguém nos avisa que, caminhando lado a lado com o maior amor que já experimentamos na vida, seria perfeitamente possível sentir também medo, tristeza, solidão e uma profunda monotonia.

O entorno social muitas vezes se distancia. Os amigos que não estão vivenciando a mesma fase profissional ou familiar podem nos achar repetitivas, já que o nosso universo se estreita e só queremos falar sobre o bebê. Por outro lado, a relação com os familiares também muda de tom: não há mais espaço para palpites ou conselhos não solicitados; o que a recém-mãe precisa, no fundo, é de um prato de comida quente e da chance real de tomar um banho da cabeça aos pés sem interrupções.

A fissura Invisível do parto

São muitos os paradoxos que habitam os primeiros meses da criação. Permeando todo esse ambiente complexo de adaptação da nova família, existe um processo silencioso e intenso acontecendo na alma da mulher.

A fissura subjetiva que se abriu no momento do parto precisa de tempo, contorno e cuidado para se restabelecer. A identidade anterior se desfaz para dar lugar a uma nova configuração, e a verdade é que nada volta a ser como era antes.

Exigir que a mulher atravesse essa metamorfose isolada em quatro paredes, sem um olhar clínico e afetivo que valide as suas ambivalências, é um dos maiores erros da nossa cultura atual.

A continuidade do cuidado no puerpério

O programa ParentalLab nasceu justamente da percepção dessa necessidade urgente: a de dar continuidade à assistência humanizada à mulher. O cuidado não pode ser interrompido após o nascimento do bebê ou no corte do cordão umbilical.

Nós olhamos para a mãe não apenas durante a gestação e o parto, mas estendemos a mão no momento mais sensível, nebuloso e transformador dessa travessia: o puerpério. O nosso grupo existe para oferecer o chão firme e a escuta desarmada de que você precisa para reconstruir a sua própria voz enquanto aprende a maternar.

Espaço da nossa Aldeia

Validar que é normal sentir solidão e saudade da vida antiga, mesmo amando profundamente o seu filho, é o primeiro passo para aliviar o peso do puerpério.

Qual foi o “artigo de luxo” da vida comum que você mais sentiu falta logo que o seu bebê nasceu? Como tem sido lidar com os paradoxos emocionais dessa fase por aí? Compartilhe a sua história nos comentários e lembre-se de que a nossa roda está aqui para te acolher!

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.